| Vocábulo |
Pronúncia |
Significado |
Exemplo |
Cá a gente |
cá a gent' |
Nós. |
Ex: Cá a gente nã somos c'm' os de Lisboa. Gosta-se é de coisinhas boas sameadas e fêtas p'r cá... |
Cabaço (dar o) |
dar'o cabaç' |
Terminar o namoro; não aceitar o convite de namorar; negar-se a qualquer coisa. |
Ex: Nã te descudes qu’ela dá-te o cabaço e òdespôs é uma vergonha!... |
Cabana |
cabana |
Dormitório de animais domésticos; estrebaria; cavalariça; arramada; cavelhariça . |
Ex. Ó Zé, vai dar água ao burro qu’ele tem sede. – Onde é qu’ele ‘tá? – ‘Tá na cabana, ond’é qu’havera de ‘tar?... |
Cabeça |
cabeça |
Parte da caldêra em forma de cachimbo. |
Ex: Moços, ajudem-me lá aqui qu’ê tenho qu’alimpar a cabeça da caldêra antes qu’ela crie zinavre. |
Cabeçada |
câb'çáda |
Parte do medronho em fermentação que fica na parte de cima da pipa e se tapa para evitar o contacto com o ar. Se ficar mal tapado e se destilar, produz aguardente com sabor azedo. |
Ex: Compad’Zé, tenha cudado alimpe bem a cabeçada. Olhe que se estila essa massa, a aguardente fica estragada... |
Cabeço |
cabéç' |
Cume; outeiro; cimo de um monte; pontal; pontalinho; pontada; altura; portela; vertente. |
Ex: Mái munto anda aquele homem!... Já vai estrapondo além naquele cabeço!... |
Cabo (dar) |
dar cab' |
Estragar; destruir; danificar. |
Ex: Nã dês cabo disso… Ata nã vês que dé tanto trabalho a fazer!... |
Cabo dum pôco (a) |
a cab' dum pôc' |
Pouco tempo depois; passado algum tempo. |
Ex: Fui ô mercado de Monchique, cheguí lá, a cabo dum pôco vim-me logo embora. Aquilo nã tinha aira nenhuma!... Q’ondo munto, ‘tavam lá umas oito ó dez rêses... |
Cabras |
cabras |
Manchas nas pernas provocados pela dilatação das veias devido ao excesso de calor proveniente da lareira. |
Ex: Tal é esse rabanho de cabras que tens nas pernas!... – Atão, com um frio destes uma pessoa tem que se chegar p’r’ô pé do fogo... |
Cabresto |
cabrest' |
Apetrecho de coiro ou corda adaptado à cabeça das bestas para permitir conduzi-las com arreata; cabrão; sacana. |
Ex: Manel, enq’onto ê ajêto aqui a albarda, põe lá aí o cabresto no burro, fazendes favor. |
Cação (em) |
em cação |
Nu; em pelote; de cu à vela; em panete. |
Ex: Mái atão este moço nã tem juízo nenhum, anda-me aqui em cação com um frio destes!?... |
Caçapo |
caçap' |
Láparo; coelho jovem. |
Ex: Aquela n’nhada qu’a coelha teve a outra semana já ‘tão uns belos caçapos!... |
Caçar ratos |
caçá' rat's |
Simular que dorme; disfarçar. |
Ex: Esta noite nã dormí quái nada. Leví a noite toda a caçar ratos. |
Cacenho |
cacenh' |
Bom caçador (cão e gato). |
Ex. Que lindo canito que tem aí parente!... Isso é cacenho? – Nã!... Ist’é da minha filha... | Tenho lá uma gata, cacenha o más que possa ser!... Nã há rato qu’escape... |
Cacepo |
cacep' |
Cepa ou tronco irregular semelhante a uma cepa; tróço; trave; barrote; borneco; madêro. |
Ex: Que belo cacepo p’a pôr no lar à noite!... Se nã me desquecer, logo o levo. |
Cácere |
cáç're |
Espécie de colher redonda de grandes dimensões, com cabo comprido de madeira, utilizada para tirar a massa ou mosto fermentado do medronho da vasilha para o tacho da caldêra para seguidamente ser destilado. |
Ex: Alcança-me lá o cácere p’a ê tirar a massa p’rô balde. |
Cachaço |
cachaç' |
Nuca; pescoço; tatuço. |
Ex: Nã me digas que nã és capaz de matar um coelho?!... É só dar-‘le um tatução no cachaço, pronto... |
Cachamôrra |
câchâmôrra |
Chatice; aborrecimento; dificuldade; complicação; enredo; enlêo; empeço. |
Ex: Tal 'tá a cachamôrra... Atã nem p'r nada que dô infiado a linha na agulha... |
Cachamôrra! |
câchâmôrra! |
Caramba!; porra!; bolas!; que chatice!; pôceras!; punhana!; punhana mundo!; punhefra!; fado dum cabrão!; fado dum ladrão! |
Ex: Cachamôrra!... Vocês nã podem 'tar sossegados nem um 'stante... 'Tão sempre a empencer um com o outro... |
Cachamôrra (fazer) |
fazer câchâmôrra |
Troçar; zombar; fazer pouco; judear; arremedar; mangar; fazer arrenegas; caçoar. |
Ex: P’ra qu’é ‘tares a fazer cachamôrra da pobrezinha?... Nã vês qu’isso é fêo? S’um dia chegares à idade dela, gostavas que te fazessem o mémo?... |
Cachêrada |
câchêráda |
Pancada; cacetada; queda; porro; pranchada; porradão; ripada; berlaitada; caquêrada; tatução. |
Ex: Mái atão vocês eram tã amigos e agora andam aí à cachêrada pre mode quem?... | ‘Tô aqui que nem sinto esta perna!... Caí ali uma cachêrada das calêras abaxo, ia-me partindo todo!... |
Cachimbo |
cachimb' |
Dobradiça; peça superior da caldêra; engonço. |
Ex: Tem-se que mandar pôr uns cachimb's nôv's na porta da frente, qu' aquel's já 'tã todos 'stragad's. – Quer's qu' ê diga lá ô Mest'e Lúiç', mái logo, q'ond' sair da missa? |
Cachimóina |
cachimóina |
Cabeça. |
Ex: Nã tens juízo nenhum nessa cachimóina... |
Cachola |
cachóla |
Fígado do porco; é cozido com batatas e, geralmente, servido aos participantes na mortepórque como um dos pratos típicos desse evento. |
Ex: Ê cá gosto munto de cachola, mái o bofe nã ‘le fica atrás... |
Cachuça |
cachuça |
Boina redonda e sem pala. |
Ex: Antóino, põe a cachuça na cabeça que ‘tá munto sol. |
Caçoar |
caçuar |
Troçar; zombar; fazer pouco; fazer cachamôrra; judear; arremedar; mangar; fazer arrenegas; fazer porra; pôr-se com coisas; meter-se com; pegar com. |
Ex: Ó Zé, vai lá ali à rua ver se chove!... – Mecêa 'tá mas é a caçoar com-migo... |
Cada um |
cada um |
Eu; a gente; alguém; uma pessoa; um homem; ê cá. |
Ex: Quem saria o malandro que m' estragô isto tudo? Cada um, agora, sará obrigado a aturar isto?!... |
Cada um é com-mo cada qual |
cada um é com-m' cada qual |
Cada pessoa é o que é e procede como muito bem entende; expressão que significa compreensão, condescendência em relação a um comportamento de alguém com que não concordamos. |
Ex: Nã vê aquele homem comadre. Em vez de se arranjar e ir à missa, leva além os Domingos a trabalhar, p’ra ele nã há dias santos... – Atã isto cada um é com-mo cada qual, o qu’é qu’a gente há-de fazer?... |
Cadelo |
cadelo (como em marmelo) |
Malandro; patife; tratante; mau; maroto; cão. |
Ex: O cadelo do tempo nunca mái alevanta a ver s' uma pessoa faz p' aí qualquer coisa... – E eles inda dã chuva p'r mái um dia ó dôs... |
Cadêras |
cadêras |
Ancas; nádegas; rabo; fòfêro; quartos; quadris; nalgas. |
Ex: De tanto ‘tar sentado já tenho aqui uma dor nas cadêras que me custo a levantar. |
Cafelo |
cafel' |
Reboco. |
Ex: Já mandí arranjar o cafelo desta parede, más atão isto ficou quái na mesma... |
Caga-azête |
cag-àzêt' |
Libelinha; pinga-azête. |
Ex: Em chegand'esta altura do ano, anda sempre uma preção de caga-azêtes à roda deste tãinque, nã sê perquém. – Sê cá, há-de ser pre mode estes limes que narcem aqui... – Há quem diga qu'eles andam a c'mer mosquitos... – Ê cá nã acredito!... |
Cagaçal |
câgâçál |
Barulheira; algazarra; alarido; ôrío; escalhada; urrada; banzé. |
Ex: Que cagaçal é esse pr’aí que nã dêxam ninguém descansar?!... |
Cagáiço |
câgáiç' |
Susto; medo; rabana; cagufa; cagúifa; cúifa; respêto. |
Ex: Tal foi aquele cagáiço que panhaste 'inda'agora q'ond'ê cá te dí além um eco?... Até ficaste branco... |
Cagana |
cagana |
Excremento de cabra, ovelha, coelho, rato e outros. |
Ex: Des qu’o esterco de cagana de cabra qu’é munto bom p’a pôr nas bejoarias... – Ê tam’ém já ouvi dizer que sim. |
Caganêra |
caganêra |
Diarreia; ralêra; soltura. |
Ex: É vergonha d’zer, mái comi umas amêxas quentes do sol, tenho andado com uma caganêra que nã governo outra vida senã pôr as calças a baxo... |
Caganêrice |
câgânêríss' |
Vaidade; esquisitice; presunção; asnêra; mania. |
Ex: Com aquela caganêrice toda, lá pensa que l'e dã alguma importãinça... |
Caganêroso |
câgânêrôz(e) |
Vaidoso; esquisito; presunçoso; asno; baboso; inchado; de rabo alçado; maniento; cu d'asnêra; penêrento. |
Ex: Um caganêroso daqueles, pensa qu’ é alguma coisa que preste... |
Caguetes |
câguêt's |
Pés. |
Ex: Nã me pises os caguetes qu’ê tenho isto tudo dorido. |
Cagufa ou cagúifa |
câgúfa ou câgú-ifa |
Medo; susto; cagaiço; respêto; cúifa; rabana. |
Ex: Tal foi a cagúifa que panhaste 'inda'agora q'ond'ê cá te dí além um eco?... Até ficaste branco.... |
Cagulo |
câgúl' |
Cogulo; parte do cereal acima do nível da rasoira, isto é, que excede o nível das bordas da medida. |
Ex: Que belo negóiço que fazeste. Atão o alquêre do fêjão nã tem cagulo nenhum... |
Cagulo (em alto) |
em alt' câgúl' |
Muito cheio, acima do nível da rasoira; acagulado. |
Ex: Aqui é tudo medido em alto cagulo. Nem tã pouco é preciso rasoira... |
Cãimbo |
cãimb' |
Câmbio; utensílio feito de uma forca de árvore, com cabo curto, destinado a pendurar qualquer coisa a outra; utensílio feito de uma vara comprida com gancho, utilizado para puxar as pernadas das árvores de fruto até ao alcance do apanhador da fruta. |
Ex: Dêxa-me lá pôr aqui um cãimbo na asa do cesto qu’é p’ra apanhar umas q’ontas anéspras. | Alcança-me lá aí o cãimbo p’a puxar aquela pernada, qu’aqueles figos nã podem ficar além p’rôs pássaros... |
Cãinda ou Cãindinha |
cãinda ou cãindinha |
Cândida. |
Ex: Encontrí ali a prima Cãinda, mandô-te muntos comprimentos. |
Cair de cu |
cair d'cu |
Cair ficando sentado no chão; bater uma cusada. |
Ex: Nã pises aí essa lisga senã cais de cu em menes de nada. |
Calaiço |
câláiç' |
Copo; bebida; cálice; calço; calcesinho; porrete; copadinha. |
Ex: Ó parente, nã se vá já embora qu'a gente bebe-'le aqui más'um calaiço dela... – Nã posso prim'Antóino, o madronho é bom, más'ê tenho qu'abalar... |
Calar |
calar |
Acalar. |
Ex: Atã nã sabes ver s’uma blancia ‘tá madura, é preciso calá-la?!... |
Calar-se aí |
calar-s'aí |
Escutar; ouvir. |
Ex: Ó prima, cale-se aí!... Atã nã é qu' aquilo qu' ê l'e disse, inda agora, semp' é verdade?!... |
Calças de cuco |
calça d'cuc' |
Dedaleira, variedade de planta silvestre com flores avermelhadas. |
Ex: As calças de cuco são munto bonitas, nã são?... Mái des que são venenosas?!... Sará de caso?... |
Calcanhar de S. Pedro |
calcanhar de s. pedr' |
Broa; espécie de pão feito de farinha de milho, cozido no borralho do lar; francisco; bolo de lar. |
Ex: O qu'é qu 'tás aí a fazer no lar? – Éh'q 'tô p'aqui a fazer um calcanhar de S.Pedro. – Ah... um bolo de lar. Tens que me dar um coisinho p'ra ê provar. |
Calçaja |
calçaja |
Bebida; copos ; calcesinho; porrete; copadinha; copada; calaiço. |
Ex: Passí alèm à do ti Manel, nã me largô sem ê cá beber lá uma calçaja com ele … E tem da boa!... |
Calçar |
calçar |
Ferrar uma besta. |
Ex: Inda ontordia mandí calçar o mê burro, já perdé uma ferradura... |
Calcesinho |
calç'sinh' |
Diminutivo de calço, geralmente utilizado quando se oferece um copo de medronho; bebida; calço; porrete; copadinha; copada; calaiço. |
Ex: Nã quer um calcesinho dela, ti Tóino?... – Ê sê cá se beba... Mái vá lá. |
Calço |
calç' |
Cálice; calcesinho; porrete; copadinha; copada; calaiço. |
Ex: Passí alèm à do ti Manel, nã me largô sem ê cá beber um calço dela… E é boa!... |
Calcular |
calcular |
Imaginar; em-maginar. |
Ex: Vinha ali prê adiante, calculam lá o que m'aconteceu? – Munto sê eu... |
Caldear |
caldear |
Misturar líquidos; misturar cal ou cimento com areia e água. |
Ex: Caldêa isso bem qu’ nã quero ver aí torrons. |
Caldêra |
caldêra |
Alambique; apetrecho para destilar medronho constituído por um tacho de grandes dimensões e uma cabeça em forma de cachimbo, ambos em cobre; pequena cova circular à volta do tronco das árvores para as regar ou permitir a infiltração de água da chuva. |
Ex: O mê pai tinha uma caldêra. Só levava sês arrobas, mái era munto boa. Nunca se pegava a massa no fundo. | Dêxa-me cá fazer uma caldêra bem larga qu’a laranjêra gosta disso. |
Caldêrada |
caldêrada |
Cada uma das vezes que a caldêra é cheia de mosto e este é destilado; estilação. |
Ex: Est’ano tenho umas vinte caldêradas p’a fazer. Vou começar a estila a seguir ô Ano Novo. |
Caldêro |
caldêr' |
Tacho ou caldeirão pequenos. |
Ex: Coze as batatas doces méme aí nesse caldêro que nã tem emportância. Isso sã p’ôs pórquês. |
Caldo |
cald' |
Molho da comida; bebida feita de farinha de trigo torrada dissolvida em água tomada ao pequeno almoço. |
Ex: O fêjã assim com este caldo grosso é munto más gostoso. | Já agora, torro aqui uma farinhita p’a fazer caldo p’ô quebra-jum. |
Caldo moiro |
cald'-môir' |
Caldo da cozedura das morcelas. |
Ex: Comadre, nã quer um coisinho de caldo moiro p’a fazer umas papinhas moiras? – Já que vomecê me dá, aprovêto. |
Calêra |
calêra |
Degrau; escalêra. |
Ex: Estas calêras sã más d'assubir com uma canastra de batatas às costas. Sã munto 'strêtinhas. |
Calêras |
calêras |
Escadaria; degraus; escalêras. |
Ex: Estas calêras sã munto estrêtas. Já, há tempos, o mê irmão caí aqui. |
Cale-se aí!... |
cal'-s'aí!... |
Expressão de concordância e ênfase com o que foi dito pelo outro. |
Ex: Estas moças agora usam umas saias tã curtas qu’até dá vergonha. – Cale-se aí , comadre. ‘Inda, no Domingo, vi umas, em Marmelete, que quái que mostravam o rabo… |
Calfa |
calfa |
Cortiça virgem. |
Ex: O qu' é qu' eles fazem com as pernadas de sobrêra que cortam? – Olha, tiram-l'e a calfa com umas enxós e com os tarôcos fazem cravão. |
Calha |
calha |
Ver jogo da calha. |
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Calhando |
calhand' |
Provavelmente; talvez; possivelmente; se calhar; nã ter nada em. |
Ex: ‘Tá um tempo tã ‘scuro. Calhando chove nã demorando. |
Calhandro |
calhandr' |
Com pernas tortas, a abrir para os lados.. |
Ex: Ela béque-me tem as pernas 'squesitas. – Atã nã vês qu'é calhandra?... Já há munto tempo qu'ê tinha repairado nisso. |
Calhar |
calhar |
Convir; proporcionar-se; dar jêto; fazer jêto. |
Ex: Quer provar aqui a minha aguardente? – Que bem que me calha, agora, um calcesinho dela, compad'e Zé... |
Calhàzada |
câlhàzáda |
Pedrada. |
Ex: Uma vez dí uma calhàzada na cabeça do mê irmão, teve qu’ir fazer o tratamento a Marmelete. |
Calitro |
câlítr' |
Eucalipto. |
Ex: Estes calitros já ‘tã bons p’a cortar. Há q’ontos é que foram d’spostos? Nã há más de sete ó oito. |
Calma |
calma |
Calor; soalhêra; torrêra. |
Ex: Tal é esta calma que ‘tá aí? Este V’rão tem vindo bem quente. |
Calma (hora da) |
hora da calma |
Parte mais quente do dia de verão. |
Ex: À hora da calma tenho que dormir uma folga qu’isto ‘tá munto calor. |
Cama |
cama |
Mato picado, colocado na pocilga ou na arramada, para proteger o gado do frio e da humidade do chão. |
Ex: Dêxa-me cá ir panhar um costal de cama p’rô gado ant’s q’anoiteça... |
Camaço |
camaç' |
Pancadaria; tareia; tuna; untura; pisa; remessa; carga de porrada; enxerto. |
Ex: Met’-te com-migo que levas um camaço de porrada qu’ê logo te digo… |
Camalhão |
camalhão |
Elevação de terra que divide os regos, casêras e quadros. |
Ex: Tens de fazer esses camalhõs más altos, senã assim nã levam quái água nenhuma... |
Cambalhota |
cambalhota |
Pino; tombo; trambolhão; queda; malhão; porro; porradão; pancada; estoiro; bate-cu; mangulada. |
Ex: Sabes dar cambalhotas? Põe as mã’s no chão, a cabeça bem em baxo e empurra com os pés. |
Cambra |
cambra |
Câmara. |
Ex: Nã ôves? Adonde é que se tira as l'cenças p' ôs cãs? – Cudo qu' é na Cambra... |
Caminho de |
caminh' d' |
Até; a; para; na direcção de. |
Ex: Bom, vô-me caminho de Marmelete, qu' isto sã quái horas de missa. | Se me dizes mái alguma coisa vô-me caminho de ti nã sê o que te faço... |
Camiseta |
câm's'eta |
Camisola interior. |
Ex: Antóino, veste esta camiseta lavada qu’hoje é D´mingo. |
Campo |
camp' |
Espaço. |
Ex: Ó môces, dêem-me lá aí campo qu'ê assim cust'-me a governar. E é p'rigoso 'tarem aqui tã ô pé do machado. |
Campôso |
campôs' |
Espaçoso; amplo. |
Ex: Esta caxa é bem camposa. Calhando, cabe aqui o milho todo. |
Cana-frecha |
cana frécha |
Arbusto utilizado, depois de seco, para fazer um brinquedo em forma de moinho ou hélice, que rodava com o vento. |
Ex: Sabes adonde há p' aí canas-frechas p'a ê fazer moínhos? – Olha. ali p'r trás de casa, há logo uma p'rção delas. |
Canastra |
canastra |
Espécie de cesto grande sem asa, de formato redondo, com duas pegas laterais, feito de vime (verga), utilizado para acomodar e transportar produtos hortículas às costas ou ao ombro. |
Ex: Compad’e Zé, q’ontas canastras de batatas é qu’aquele cantêro deu? – Nã sê bem, que nã as contí. |
Canastra-de-carregar |
canastra de cârr'gár |
Espécie de canastra, de formato comprido, arredondada nas pontas, com duas pegas, feita de vime (verga), utilizado para acomodar e transportar produtos hortículas em bestas. |
Ex: C'm' é que leva essas batatas-doces todas p'ra casa? – Ê já trago aqui o mê burro com duas canastras-de-carregar... |
Candêo |
candêo |
Flor da oliveira, trigo e outras plantas. |
Ex: Que belo candêo que têm as minhas olvêras… S’o tempo ajudar, dã’aqui uma carga de ‘zêtonas qu’é um consolo… |
Candêo (ir ao) |
ir ô candêo |
Caçar de noite pássaros amalhados nas árvores, com o auxílio de lanterna e espingarda de pressão de ar. |
Ex: Esta note fomos ô candêo, ê cá e o Chico, temos ali une passarecos p’a c‘mer. |
Candiôila |
candiôila |
Planta medicinal considerada virtuosa para tratamento de doenças da pele. |
Ex: Há uma preção de tempo que tenho isto aqui na pele. Dá-me cá uma bretoeja... Já nã sê o que faça... – Ó m'lher, exp'r'menta a candiôila. Des qu' é munto bom... |
Caneco |
canec' |
Pessoa velha e inútil; loiça velha; coisa velha sem préstimo. |
Ex: Pobrezinho, ‘tá feto num caneco. | Tenho qu’ir à fera de Monchique comprar pratos qu’os mês ‘tam fêtos nuns canecos. |
Cangalhas |
cangalhas |
Utensílio, geralmente de madeira, usado para acomodar a carga no lombo das bestas; óculos. |
Ex: Estas cangalhas sã pequenas p’a carregar os molhos do trigo. Tenho que mandar fazer umas más largas. |
Canha |
canha |
Mina no fundo dum poço; tronco em que se escava um sulco para servir de rego, permitindo a passagem de água sobre uma depressão. |
Ex: Q’ondo fiz a canha é que cortí o barrêro e atão ‘parceu uma fartura d’água. |
Canhoto |
canhôt' |
Esquerdino. |
Ex: Ele era canhoto, mái obrigaram-no a ‘screver com a mã d’rêta, qu’no nosso tempo era assim. |
Canito |
canit' |
Cãozinho. |
Ex: Atã o sê cão morreu? – Mê belo canito, que gôrdava tã bem o monte… |
Canoira |
canôira |
Caule do milho ou planta semelhante; tarôco. |
Ex: O qu’é que ‘tás a fazer? – ‘Tõ a cortar esta canoira de milho à pregunta de bicho p’armar uma loisa. |
Canoiras |
canôiras |
Pernas; pernas compridas e finas. |
Ex: O Zé ‘tá magro que nem um cão. Olha-me p’aquelas canoiras… |
Cantar os rês |
cantar'os rês |
Cantos populares efectuados porta a porta por um grupo de janêrêros (joldra) na Noite de Reis. O dono da casa visitada oferecia dinheiro, morcelas, chouriças ou outros e uma rodada de medronho. |
Ex: Nã te digo nada. Méme com a nôte chovendo, inda vieram cá duas joldas cantar os rês... – Ele há gente p'a tudo... |
Cantarêra |
cantarêra |
Móvel de madeira ou pedra onde se colocam os cântaros e outros utensílios de cozinha; poial. |
Ex: Ó Jôquim, põe-me lá aí a enfusa na cantarêra qu’ê cust’ a poder com ela. |
Cantêro |
cantêr' |
Socalco para fazer agricultura, geralmente, suportado por um velado; depois de cavado é dividido transversalmente em quadras e estas em lêras e regos. |
Ex: Com esta chuva já caíu uma rombada no velado do cantêro do tãique. |
Cantêros |
cantêr's |
Horta; fazenda. |
Ex: Este ano tenh'andado quái sempre a trabalhar por fora, 'inda nã fiz a bem d'zer nos cantêros. E tá quái na altura de samear uma batatinhas... |
Canudo |
canud' |
Cana com cerca de um metro de comprimento preparada para soprar o fogo no lar quando é necessário ateá-lo: a ponta que se encostava à boca é cortada em forma de bisel e todos os nós perfurados com um arame para permitir a passagem do ar quando se sopra; protecções de cana que se colocavam nos dedos da mão esquerda, enquanto se ceifava, para evitar cortá-los com a foice; recipiente de cana utilizado na estila para retirar aguardente do cântaro com a ajuda da solipa; cortiço; corcho. |
Ex: Alcança-me lá aí o canudo q’o fogo ‘tá quái apagado. |
Canudo de milho |
canud' d'milh' |
Pèzêra de milho. |
Ex: Est’ano tenho ali uns belos canudos de milho. Se nã me faltar a água… |
Canzis |
canzis |
Paus perpendiculares à canga. |
Ex: Preciso de pôr aqui outros canzis qu’estes já ‘tão munto velhos. |
Cão |
cão |
Mau; brincalhão; que faz partidas; maroto; canalha; vadio; malandro; mal comportado; marau; mariola; belhardêro; gozão; judeu; cadelo. |
Ex: Aquilo é um cão. Até pancada na m'lher ele dá... | Grande cão que me saíste... 'Tás semp'e no gozo.... |
Capação |
capação |
Castração; capadura. |
Ex: D’zeram-me qu’o pórco do Tóino morreu da capação. Atã agora com’é qu’o homem se vê sem sovão?… |
Capacho ou capacha |
capach' ou capacha |
Tapete feito de emprêta; espécie de leque, feito de empreita com cabo de madeira, destinado a ventilar o fogo para activar a combustão; abano. |
Ex: Zezinho, põe os pés em cima do capacho qu’o chão ‘tá munto frio e podes-te constipar. |
Capador |
capador |
Especialista na capação de porcos. Antigamente deslocava-se de monte em monte para executar o seu trabalho, capando o porco jovem que seria o sovão do ano seguinte. |
Ex: Já capaste o tê porque? ‘Inda não. ‘Tô à ‘spera do capador por estes dias. |
Capadura |
câpâdúra |
Castração; capação. |
Ex: Esta porca tem sofrido munto da capadura. Quái que nã come. |
Capaduras |
câpâdúras |
Peles da barriga do porco usadas para temperar a couve branca cozida. |
Ex: Gosto más da papada na couve do que das capaduras. |
Capái |
câpái |
Capaz; provável; possível; previsível. |
Ex: Esta tarde, é capái de vir p' aí uma gotinha d' água. C' m' ê 'tô a ver o astro... |
Capar |
capar |
Castrar; cortar alguns rebentos nas plantas. |
Ex: Tenho que mandar capar este burro qu’ele é munto raguingoso. Dá coces e morde. |
Capote |
capot' |
Não fazer nenhuma vaza ou nenhum ponto no jogo dos três setes. |
Ex: Hoje nã alevantas uma partida e agora vás levar capote. |
Caquear ou caquenhar |
caquear ou caquenhar |
Insistir; teimar; repetir; aborrecer; brigar; rançar; repisar; rentar; ramocar; impertenecer; apequentar; judear; zucrinar; besoirar; embicar; matinar; catarruar; dar-lhe. |
Ex: Nã vale a pena ‘tares p’aí a caquear que nã te serve de nada. Já disse que nã quero, nã quero. |
Caquenho |
caquenh' |
Repetitivo; teimoso; chato; rançoso. |
Ex: Já m’aborrece de falar com ele. Diz sempre o mesmo. ‘Tá méme caquenho. |
Caquêrada |
caquêrada |
Cacetada; pancada; porro; cachêrada; porradão; pranchada; ripada; berlaitada; tatução. |
Ex: ‘Tás aqui, ‘tás a levar uma caquêrada se nã ta pões q’ueto. |
Cara de pôcos amigos (com) |
cara d' pôc's amig's |
Antipático; zangado; com má cara; marafado; marfado; enzainado; danado; enrèxado. |
Ex: Dêx'-ô qu' ele hoje 'tá com cara de pôcos amigos, inda se joga a ti... |
Caracol, caracol |
caracol, caracol |
Brincadeira que consistia em pôr uma caracoleta-moira no chão e tocar-lhe, repetidamente, com um pauzinho enquanto se dizia: Caracol, caracol, põe os corninhos ao sol. |
Ex: Caracol, caracol, põe os corninhos ao sol. Caracol, caracol, põe os corninhos ao sol. Mãe, ele nunca mái c'meça a andar... – Ó filho, diz más vezes... |
Caracoleta-moira |
carac'leta-môira |
Tipo de caracol de maior envergadura. |
Ex: Este enverno tenho panhado umas belas caracoletas-moiras. Um dia destes há-des parcer por lá qu'a gente faz uma patuscada. – Ora é logo q'ondo calhando... |
Caráctel |
caráctel (como em Manuel) |
Rosto; cara. |
Ex: O parente da Refóias tem um caráctel até dá medo. |
Carapinha |
carapinha |
Pequena porção de cabelo muito enleado; invólucro natural que contém as sementes da esteva. |
Ex: Maria, tens o cabelo numa carapinha. Tenho que te desenlear isso. | Com a carapinha da ‘steva dá-se fêto uma piorra. |
Carbureto |
carburêt' |
Material que, quando misturado com água, produz gás inflamável usado como combustível nos gasómetros; carboneto. |
Ex: Ó mãe, o qu’é o pai põe drento do gasómetro que dá luz? – Sê cá. Parece-me que ‘le chamam carbureto. Aquilo é umas pedras com um chêro e qóndo se põe água, tiça-se fogo e dá luz. |
Carcachada |
carcachada |
Gargalhada; risada. |
Ex: O Zé Manel dé’um bate-cu ali no mêo da rua. Assim que vi aquilo, dí logo uma carcachada. |
Carcanhol |
carcanhol |
Pescoço; garganta; garganhol. |
Ex: Queres que t’aperte o carcanhol? Atã nã m’apequentes. |
Cardas |
cardas |
Brochas; pequenos pregos de cabeça larga pregados na sola das botas ou sapatos grosseiros para os proteger do desgaste. |
Ex: Mandí pôr cardas nestas botas senã ‘stragav’as em men’s de nada. |
Carepa |
carépa (como em careca) |
Crosta seca das feridas; bocado de pele seca; casca interior da castanha e outros frutos; crapela. |
Ex: Assim nunca más curas essa f’rida. ?’Tás sempre a ‘le tirar a carepa… | Estas castanhas têm a carepa munto má de tirar. Calhando, nã secaram bem. |
Carepe |
carep' |
Nega; falha; garepe. |
Ex: Podia ter morto más uma perdiz, más atão a espigarda dé-me um carepe… |
Carepe (dar o) |
dar'o carep' |
Estragar-se. |
Ex: Atão o isqueiro nã acende? – Este já dé’o carepe. |
Careta |
careta |
Trejeito; garatuja; contracção da cara em atitude provocante ou de sofrimento; gesto provocante ou hilariante; miéco; mesura. |
Ex: Ó mãe, o mano tá-me a fazer caretas, nã vés? |
Carga de porrada |
carga d'porrada |
Sova; tuna; untura; pisa; remessa; enxerto; camaço. |
Ex: Olha, nã m'apequentes más, senã levas uma carga de porrada qu´ê logo te digo... |
Carito (fêjão) |
fêjã' cârit' |
Feijão frade. |
Ex: Hoje o jantar é fêjão carito d’azête e vinagre. Gosto munto. |
Carmesse |
càrméss' |
Quermesse. |
Ex: Dêxa-me lá ir comprar uns q'ontos b'lhetes ali na carmesse, a ver se me sai alguma coisa... – Nã qu'rias mái nada... |
Carne de gado |
carn' d'gad' |
Carne de vaca. |
Ex: Ê cá, nã sê perquém, nã gosto munto de carne de gado. Quem me tira a carne de pórco tira-me tudo. Q'ont'é que nã vale um belo pique de toicinho drento da côve... E a papada?... |
Carne magra |
carn' magra |
Febra de porco. |
Ex: Ò mãe nã me dás um coisinho de carne magra p’ra ê cá fazer uma assadura? |
Carnêra |
carnêra |
Ossário; casa onde eram amontoados os ossos, no cemitério, após serem retirados das campas. |
Ex: Coitadinhos dos mês avózes foram enterradas em campa rasa e os ossinhos foram parar à carnêra. |
Carnicha |
carnicha |
Carne. |
Ex: Cá p’ra mim, gost’é de carnicha. Batatas come tu. |
Carôcento |
carôcent' |
Diz-se de qualquer fruto com muitas sementes. |
Ex: Esta romã é tã carôcenta... Ist'nã é açaria... | Estas laranjas sã boas, mái sã tã carôcentas... |
Carofes! |
câróf's |
Nada; nem pensar!...; isso é que era bom!...; uma pouca de nada. |
Ex: Ó Luís há-des-me arranjar ali o telhado que tem uma luzerna. – Olha, carofes! Nã sabes que ‘tou mal duma perna e nã posso ir além p’a cima?… |
Carolada |
carolada |
Cacetada; ripada; porro; tarôcada; porradão; caquêrada; berlaitada. |
Ex: Leví aqui uma carolada na cabeça qu’ainda me ‘tá a doer. |
Carolho |
carôlh' |
Zarolho; estrábico; vesgo. |
Ex: Mái atã o mececo parece carolho... – É qu’acabou de nacer. Logo 'le passa. |
Carôlo |
carôl' |
Pedra redonda; espécie de soco dado com as juncas na parte de cima da cabeça; castigo para quem perdia o jogo do berlinde em que o vencedor atirava o seu berlinde às juncas do vencido; o número de carôlos era acordado antes de iniciar o jogo; rabôlo; juncada. |
Ex: Um carolo destes nã serva p’a fazer parede. | Só jogo ô belindro se for a cinco carolos. |
Carota |
caróta |
Cocuruto da cabeça; parte de cima do pião. |
Ex: 'Tou a 'panhar aqui sol demás à carota. 'Inda me vai fazer mal. | Este pião, as más das vezes, balha é de carota. |
| Carpetêro |
crâp'têr' |
Ver crapetêro. |
|
Carrapicho |
carrapich' |
Carrapito. |
Ex: A ti Alzira cada vez tem o carrapicho más russo. |
Carregado |
carr'gad' |
Nublado; a ameaçar chuva; embrulhado; enfarruscado; toldado; infarruscado; carregado. |
Ex: Era p'a ir fazer alguma coisa ali p' ôs cantêros, mái, com o tempo assim carregado, é melhor nã ir qu' ele vem aí água.... |
Carregar |
carr'gar |
Pressionar, calcar; clicar; acalcar. |
Ex: Carrega lá aqui na tamiça p'a ê dar fêto o nó bem apertado... |
Carrégo |
carrégo (como em borrego) |
Carga; transporte; acto de carregar; encargo; cargo; responsabilidade. |
Ex: O más me custa nas batatas é ter que fazer o carrego todo às costas. |
Carrelêra |
carr'lêra |
Estrada de terra batida; arramal. |
Ex: Aquela carrelêra da Refóias já precisava de alcatroada. |
Carrêra |
carrêra |
Autocarro; corrida; fugida. |
Ex: Zé Antóino, com’é que vás pá Vila? Vou na carrêra da tarde. |
Carreta |
carreta (como em teta) |
Carroça de madeira puxada por vacas, já há muito em desuso na zona. |
Ex: Antigamente o carrego de quái tudo era feto em carretas de bois. |
Carril |
carril |
Carreiro; fila de animais pequenos em movimento, tais como formigas e lagartas do pinheiro. |
Ex: Tó!... G'ande carril de bicho de p'nhêro qu'aqui vai!... |
Carro de besta ou carro de mula |
carr' d'besta ou carr' d'mula |
Carroça de madeira, de duas rodas, puxada, geralmente, por um muar, usada no transporte de pessoas e carga. |
Ex: Pede além ô primo Ináiço qu’ele carrega-te isso no carro de besta dele. |
Carro de praça |
carr' d'praça |
Táxi. |
Ex: Atã e agora, perdemos a camineta... – Manda-se ch'mar um carro de praça. |
Carvalha |
carvalha |
Baga formada na folha das carvalhêras; bugalha. |
Ex: Ao moços pequenos gostam de brincar com as carvalhas, com-mo se fossem belindros. |
Carvalhêra |
carvalhêra |
Carvalho rasteiro. |
Ex: Além no Serro dos Picos há muntas carvalhêras. |
Carvalhêro |
carvalhêr' |
Carvalho. |
Ex: Há carvalhêros qu’é proibido cortar. Nã sê que jêto. – É com’ás sobrêras, tem que se tirar l’cença p’ás cortar. |
Carvoêra |
carvoêra |
Monte de madeira, coberto de terra, em cúpula, ardendo em combustão lenta de que resulta o carvão; forno de carvão; cravoêra. |
Ex: Mái que chêro a fumo é este qu'and'aí nos ares?... – Foi o parente Chico que tiçô fogo àquela carvoêra qu'ele tem andado a fazer ali em cima. |
Casa do despejo ou casa das batatas |
casa do d'spêj' ou casa das batatas. |
Despensa; copa; arrecadação. |
Ex: Traz-me lá aí um cestinho de batatas da casa de despejo, fazendo favor. |
Casa de fora |
casa d'fora |
Sala de entrada; casa de jantar. |
Ex: Primo, entre aqui p’a casa de fora enq’onto ê vou chamar o mê homem. |
Casar |
casar |
Ajustar-se; dar certo; bater certo. |
Ex: Tusse este zambujo p'a fazer um cabo p'a este machado, mái nã me servi de nada qu' ele nã casa aqui. É munto estrêto.. |
Cascabulho |
câscâbúlh' |
Invólucro das sementes de várias plantas como o eucalipto. |
Ex: Este calitro tem bem muntos cascabulhos, havera de se panhar uma manchinha deles p'à aprovêtar as sementes. |
Cascar |
cascar |
Bater; dar pancada; tanchar; atanchar; afincar; ferrar; pregar. |
Ex: P'r ca'sa de ti, já a minha mãe m' ia cascando. Que jêto l' ires contar aquilo?... |
Cascarrão |
cascarrão |
Parte branca da casca interior da laranja ou fruto semelhante. |
Ex: Esta laranja é quái só cascarrão. Nã há nada com-mo as da baía qu’ê tenho ali em baxo. Têm uma casquinha qu nã é nada. |
Cascarrudo |
cascarrud' |
Com casca grossa. |
Ex: Que belas laranjas... mal empregado serem tã cascarrudas. |
Cascavés |
cascavés |
Guizos; conjunto de pequenos chocalhos presos ao cabresto da besta, que produziam som enquanto esta se deslocava, impedindo-a de ouvir eventuais ruídos que a espantassem. |
Ex: Punhefra, qu’os cascavés do macho do primo Ináiço ouvem-se quái a um quilómetro de lonjura. |
Cascos |
casc's |
Cabeça; corpo; costas; dorso; lombo. |
Ex: Nã abuses que dás cabo dos cascos. Carrega menos peso de cada vez. |
Casêra |
casêra |
Divisória da quadra, com cerca de um a dois passos de largura, constituída, aproximadamente, por três a quatro regos, delimitada por combros, para permitir a rega nas culturas de verão; lêra. |
Ex: Q’ontas caseras fazes em cada quadra? – Este cantêro nã é munto largo, faço umas três. |
Caso |
caso |
Assunto. |
Ex: Bom, vamos lá dêxar esse caso qu' isso nã tem mái nada que se l'e diga... – Ele ter, tem. Tu é que nã te dá jêto que se fale nisso... |
| Caso (dar-se o) |
dar-s'o caso |
Acontecer; suceder; dar-se. |
Ex: 'Inda queres vender aquela cabra moncha que tens lá, Tóino? – Quero, mái dá-se o caso qu'ela agora 'tá de maré e ê quero levá-la a cobrir primêro. |
Caso (fazer) |
fazé cas' |
Acreditar; dar atenção; dar importância; namorar com intenção de casar; falar-se; falar com. |
Ex: Ó filha, nã faças caso do qu’ele diz, qu’ele é um mentiroso. | Tenho aqui um bechôco nesta perna, nã tenho fêto caso dele e agora ‘tá-me a doer bem munto... | Pobrezinha da moça, anda toda embêçada com ele, nã vê qu’ele nã faz caso dela... |
Caso (ser de) |
ser d'caz(e) |
Ser verdade; ser possível. |
Ex: Sará de caso qu’éle tenha fêto uma coisa daquelas?!... |
Casola |
casola |
Pequena capoeira para pombos, coelhos e outros animais de pequeno porte. |
Ex: Nã ouves, vai lá ali à casola dos coelhos e traz-me uma saca com côves qu'ê dêxí ali. |
Càspô |
càspô |
Jarra de flores. |
Ex: Que lindo càspô de flores que tens aqui, Glóira!… – Trusse-as além do Brejo. |
Casquêro |
casquêr' |
Chapéu velho; pão. |
Ex: O tê casquêro já ‘tá bem debôto. – Tenho que comprar outro p’ô mercado. |
Casquilho |
casquilh' |
Parte metálica do candeeiro a petróleo por onde passa a torcida; castanha. |
Ex: Este casquilho já nã ‘tá grande coisa. O melhor é comprar outro q’ondo ires à Vila. |
Castanha |
castanha |
Parte metálica envolvente da torcida do candeeiro a petróleo; casquilho. |
Ex: Esta castanha é méme à medida da torcida. |
Castelo |
castel' |
Parte central do miolo da melancia. |
Ex: Munto gosto ê cá de blancia… E o castelo ‘inda é o melhor. |
Catarrêra |
catarrêra |
Tosse persistente; constipação ou gripe. |
Ex: Tenho andado com uma catarrêra que já nã aguento. Tusso toda a note, até me dói o peto. |
Catarruar |
catarruar |
Falar continuadamente; ramocar; brigar; caquear; caquenhar; rançar; repisar; rentar; ramocar; impertenecer; apequentar; judear; zucrinar; besoirar; embicar; matinar. |
Ex: Mas há q’uonto tempo é que tu ‘tás pr’aí a catarruar com isso?…Cala-te já que nã te posso ouvir!… |
Categoria |
cât'guría |
Qualidade. |
Ex: Olhe só p’ra categoria desta baja. Isto é do melhor que há. |
Categoria (uma) |
uma cât'guría |
Muito bom; uma maravilha; de boa qualidade |
Ex: C'm' é que 'tá o pêxe, hoje, ti Zé? – 'Tá barato, pode levar à vontade qu' iss' é uma categoria... |
Cativo |
câtív' |
De cor branca ou clara; que dá nas vistas; que realça as nódoas. |
Ex: Esta blusa é munto bonita, mái atão esta cor é tã cativa. – Pôs, isto quelquer nòdoazinha vê-se logo... |
Catramelo |
câtrâmél' |
Pé de porco; ossos da perna do porco. |
Ex: Maria, o qu’é que fazeste hoje de comer? – Olha, fiz pr’ali uma couvinha com os catramelos do pórco. |
Catramolho |
câtrâmôlh' |
Inchaço; qualquer coisa grande e desajeitada. |
Ex: Dí uma pancada com este joelho, tenho aqui um catramolho e dói-me bem munto. |
Catrefa ou catrefada |
catrefa ou catrefada |
Grande quantidade; alcatrefa; alcatrefada. |
Ex: Este ano samií alcagoitas naquele cantêro, deu uma catrefa delas qu’ê nunca pensí… |
Catrina |
catrina |
Catarina. |
Ex: Des qu'a Ti Catrina do Pontal tem 'tado p'a lá munt'embaxo. A gente havera d'ir vê-la p'aí em se podendo. – Calhando no D'mingo era boa altura, q'ond'a gente viesse da missa. |
Caturrar |
caturrar |
Implicar; emblicar; imblicar; empencer; sovinar. |
Ex: Lá 'tás tu semp'a caturrar com o tê irmão... 'Tatê que me zangar?... |
Cavalhada |
cavalhada |
Corrida de burros; escavalhada. |
Ex: Tóino, vamos fazer uma cavalhada? Eh! O tê burro nã aguenta o meu… |
Cavalinho |
cavalinh' |
Variedade de pica-pau, cujo canto característico, segundo as convicções dos nossos avós, anunciava a chuva; peto. |
Ex: Ele vai chover. Nã ôvist' o cavalinho cantar? – Béque-m' o ôvi além p' àquele lado, sim... |
Cavalitas (às) |
ás cavalitas |
Às costas. |
Ex: Tòininho, já ‘tás cansado? Anda cá qu’ê levo-te aqui às cavalitas. |
Cavalo |
caval' |
Tripé de madeira para transformar toros em tábuas mediante a utilização do serrão; árvore bravia destinada a ser enxertada. |
Ex: Zé, vamos armar o cavalo, qu’é p’ra gente serrarmos umas tábuas ainda da parte da manhã. | Um cavalo bom pr’à perêra é o marmelêro. – Há-d’es’p’rimentar o carpetêro que tamém é bom. |
Cavalo d’aranha |
caval' d’aranha |
Aranhiço de pernas muito compridas que vive em colónias numerosas existentes nas minas e outros lugares frescos e escondidos; cavalo marinho. |
Ex: A mina ‘tá chêa de cavalos d’aranha, até me dá aflição d’entrar lá. |
Cavalo (a) |
a caval' |
Montado em qualquer coisa. |
Ex: Com'é que foste à refóias? – Fui a pé e voltí a cavalo no burro. | 'Tás'í a cavalo na b'cicleta, ond'é que vás? - Vô-me à Vila ô mercado. |
Cavalo-marinho |
caval' marinh' |
Bastão usado pela GNR ou outra autoridade; aranhiço que vive em colónias numerosas existentes nas minas e outros lugares frescos e escondidos; cavalo d’aranha. |
Ex: O Fernando portou-se mal na fera do Alferce levou com o cavalo-marinho dum guarda. |
| Cavar batatas com um marrão (vai) |
vai cavá' batatas com um marrão |
Não me aborreças; o que estás a dizer é uma asneira; vai pentear cágados. |
Ex: Ouvi d'zer que tu agora namoras algumas duas ó três ô méme tempo... – Olha, vai cavar batatas com um marrão e dêxa-me sossegado. |
Cavelhariça |
câv'lhâríça |
Cavalariça; estrebaria; arramada; cabana. |
Ex: O raio das galinhas ingaram agora a ir pôr ali na cavalhariça, nã sê o que 'l' hê-de fazer. – S'elas põem naquela masdoira adonde 'tava a vaca, nã faz munto mal. |
Caxa |
caxa |
Arca de madeira. |
Ex: Tenho a caxa chêa de milho, ond’é qu’ê vou pôr os figos secos que tu trazeste? – Atão põe naquela cera qu’a tu mãe te deu o ano passado. |
Cêa |
cêa |
Jantar; as refeições tradicionais eram as seguintes: quebra-jum ou mata-bicho ao levantar, composto por um copo dela seguido de café ou caldo; almoço a meio da manhã, geralmente de papas seguidas de batatas doces cozidas; jantar a meio da tarde composto de legumes, batatas e outros produtos recolhidos da terra; Cêa ao fim da noite, antes de deitar, constituída por couve branca cozida com pique, durante grande parte do ano, ou papas de milho. |
Ex: Esta note ‘tô tã massado que nã m’apetece comer nada. – Ó homem nã te dêtes sem Cêa. |
Cebola d’albarrã |
c'bola d’albarrã |
Espécie de cebola silvestre venenosa. |
Ex: Cudado com a cebola d’albarrã qu’é munto venenosa. Tens que lavar bem as mãs antes mexer em q’alquer coisa. |
Cebolo |
c'bôl' |
Planta da cebola em fase de ser retirada do viveiro e plantada em leira para desenvolvimento final. |
Ex: Este ano semií tanto cebolo que nã sê o que ‘le hê-de fazer. – Ó parente ê cá dava-me jêto aí uns quatro ó cinco centos. C’m’é que vende isso? |
Cedo (tã) |
tã ced' |
Brevemente; prestes. |
Ex: Podes arrumá-l' além atrás qu'ele nem tã cedo se usa. |
Celidóina |
s'lidóina |
Celidónia (erva-andorinha); planta medicinal cujo chá é considerado bom para tratar o fígado. |
Ex: C'm' é que vai isso, parente? – Eh'q... P' aqui 'tô... Méme com o chá da celidóina nã vejo melhoras nenhumas.... |
Cepilho |
Cepilh' |
Plaina. |
Ex: Ti Jôquim, nã m’empresta aí um cepilho p’a ê cepilhar esta tabuinha? – Leva lá, más tem cudado com ele. |
Cerne |
Cern' |
Sadio; rijo; maciço. |
Ex: Este pau de castanho parêce podre, mái p'r dentro, 'tá mái cerne que custa-se a cerrar... – Esse castanho antigo dura anos e anos.... |
Cerrar |
s'rrar |
Fechar. |
Ex: Q'ondo saíres, na te desqueças a cerrar bem a porta, qu' é pr' ôs cãs nã antrarem em casa e fazerem pr' aí b'lhareta.... |
Cerro |
cerr' |
Colina; monte. |
Ex: Os melhores madronhêros qu’ê tenho ‘tão da banda de lá daquele cerro. |
Certo e sabido |
cert'e sabid' |
Certo; óbvio; garantido; infalível; muito provável; é mái que certo; à confiança; limpinho. |
Ex: A filha da ti Catrina já ‘tá de barriga. – Atã isso já era certo e sabido que s’ia dar. Com a vida qu’ela leva por aí… |
Ceva |
céva |
Isco. |
Ex: Com tanto rato qu' anda aí nesse sobrado, armí-l'e uma ratoêra e nã se caçô nenhum, filhos da pucra... – Põe-l'e uma ceva im condiçõs - um pedaço de toicinho ó coisa asim - que logo vês s' eles nã se caçam... |
Cevadêra |
ç'vadêra |
Recipiente onde se levava a reção para as bestas normalmente constituída por cevada ou outro cereal ou grão; geralmente era feita de empreita ou de saca; era pendurada ao focinho do animal, presa ao cabresto, de modo que este pudesse comer sem desperdiçar nada. |
Ex: Dêxa-me cá pôr a cevadêra ô macho qu’o animal ‘inda nã c’meu nada hoje. |
Cevão |
s'vão |
Porco de engorda para consumo caseiro; sovão. |
Ex: Est' ano quái toda a gente tem bons cevõs por ' í. – Hôve muita lãinda e milho com fartura... |
Chã |
chã |
Pequeno planalto, geralmente, em sítio abrigado e solarengo; chapada. |
Ex: Este ano samií umas batatinhastemproas além naquela chã, pagaram-me bem. Calhou a nã ter vindo nenhuma geada… |
Chabôcos |
Chabôc's |
Alicerces; fundaçõs. |
Ex: Manel, atã q'ond'é que c'meças a fazer a casinha? – Olha c'méço p'a semana a cavar os chabôcos. |
Chacho |
chach' |
Sacho. |
Ex: Nã sê adonde pus o mê chachinho que nã no encontro. – Atã tu nã o levaste q'ondo foste despor aquelas podas de batata doce? Calhando dêxaste-o lá no cantêro. |
Chacolejar |
chacul'jar |
Agitar um líquido; abanar. |
Ex: Entes de beberes o sumo de laranja chacoleja bem a garrafa. |
Chafurdar |
chafurdar |
Mexer em algo sujo, como lama ou estrume; bulir. |
Ex: O qu’é qu’andas pr’aí a chafurdar? Nã vês que ficas com as botas todas chêas de lama… |
Chalaça |
chalaça |
Piada; brincadeira; graça; gracejo; dichote. |
Ex: Ê cá nã admito chalaças dessas. Por isso, ‘tejam caladinhos qu’é melhor. |
Chalado |
chalad' |
Louco; doido; trôxa; empachado; ingònhado; engònhado; enrascado; vergonhoso; basbana; tramôco; esgròviado; chalado; gaseado; emparvoado; emparvatado. |
Ex: Mái atão o qu’é o Mongariça tem feto pr’aí? – Nã ‘le dês emportância qu’ele anda chalado. |
Chamar nomes |
ch'mar nom's |
Tratar a pessoa por alcunhas; chamar alguém com palavras impróprias ou obscenas. |
Ex: O sê Zé cada vez que m’encontra só me chama nomes. Avise-o bem p’a qu’ê nã tenha de ‘le puxar as orelhas. |
Chamar p’lo grigóiro |
ch'mar p’lo grigóir' |
Vomitar; gomitar; emborrachar; bolsar. |
Ex: Nã sê o qu’ê c’mi ontem, que leví a nôte quái toda a ch'mar p’lo grigóiro. |
Chamarisma |
chamarisma |
Chamariz; atracção. |
Ex: Fui ver as corridas à Nave e gostí. Nunca tinha visto tanta gente junta. – P'ra quem, só p'ra verem uns parvos a andar de b'cicleta?... – Mái aquilo é um grande chamarisma, nã penses. |
Chamiças |
chamiças |
Acendalhas. |
Ex: A lenha 'tá toda molhada, tens que trazer aí mái umas chamicinhas senã nã se dá acendido o fogo. |
Chamuscar ou chamusgar |
chamuscar ou chamusgar |
Queimar superficialmente; queimar os pêlos dos animais abatidos (porcos, aves). |
Ex: A minha Maria ‘tá semp’a dormir ô pé do fogo. Ontem à note deu um gangueão até chamuscou as pastanas. | Este ano, antes que chova, já tenho ali um monte de tojos p’ra chamuscar o pórco. |
Chamusco |
chamusc' |
Acto de chamuscar. |
Ex: Traz aí a bassoira d’urza p’ra ê cá barrer estes restos de chamusco daqui da rua. |
Chanita |
chanita |
Diminutivo de chã. |
Ex: Traz aí a bassoira d’urza p’ra ê cá barrer estes restos de chamusco daqui da rua. |
Chapada |
chapada |
Vertente do cerro; bofetada; estalada; tabefe; galheta; lembefe; latada. |
Ex: Olha, lá vai ele pl’aquela chapada acima… | Se nã te pões queto, levas uma chapada é logo um descanso. |
Chapéu |
chapéu |
Cornos do gado, geralmente, vacum. |
Ex: A vaca tem um belo chapéu, mái ‘tá um bocado magra. |
Chapim |
chapim |
Dinheiro; bagalhuço; bagalhuça. |
Ex: Ê q’ria pagar uma rodadinha, mái nã tenho chapim… |
Chapinhar |
chap'nhar |
Brincar com a água. |
Ex: Estes moços pequenos nã podem ver água, põem-se logo a chapinhar. |
Charavascos |
chârâvásc's |
Conjunto de arbustos rasteiros e concentrados. |
Ex: Nã viste aquele escalavardo qu’atravessou além o caminho? – Sim. Meté-se além dentro daqueles charavascos. |
Charazes |
chârá-z's |
Campos não habitados. |
Ex: Fui à fêra d’Al’zur a pé, andí perdido lá pl’aqueles charazes a manhã quái toda, custí a chegar lá. |
Charimbote |
charimbot' |
Contratempo; piparote; charingadela. |
Ex: Este ano leví cá um charimbote com as batatas!… ‘Tá tudo chêo de barb’leta. |
Charingadela |
charingadela |
Contratempo; prejuízo; charimbote. |
Ex: Vê lá nã leves uma charingadela com-m’ ê leví o ano passado. Tamém dêxí as batatas p’a vender no tarde, carregaram de barb’leta, tive qu’as dar todas ôs porcos. |
Charingar |
charingar |
Tramar; lixar; comprometer; deixar em situação difícil; enrascar; empachar; encalacrar; trompicar; presicar; incalacrar. |
Ex: Já me ‘tãs a charingar… Nã foi isso qu’a gente combinamos. |
Charneco |
charnec' |
Pega rabuda (pássaro). |
Ex: O charneco é o páss'ro mái má d’apanhar a nã ser a tiro. E p’a devassarem a fruta?!… Comem tudo. |
Charola |
charola |
Brincadeira; divertimento; palêo; galhofa; palheta; lambarêo; groja. |
Ex: O Sabastião tem ‘tado a tarde entêra na charola. |
Charola (andar na) |
andar na charola |
Divertir-se; charolar; andar na geraldina; andar na boavaiela; andar no laré; andar na ratôiça. |
Ex: Atão nã foste trabalhar? – Desde Domingo, tenho andado a semana toda na charola. |
Charolar |
chârulár |
Gracejar; divertir-se; brincar; andar na geraldina; andar na charola; andar na boavaiela; andar na ratôiça; andar no laré; espáircer. |
Ex: É, Tóino. Esse chapéu assenta-te bem… – Bom, bom. ´Tás semp’a charolar… |
Charrafa |
charrafa |
Barbas da maçaroca do milho. |
Ex: q’ondo ê era moço pequeno fazia cigarros com charrafa de milho. |
Charro |
charr' |
Carapau. |
Ex: Venda-me lá aí uma dúiza de charros p’ô almoço. |
Charro do alto |
charr' do alt' |
Carapau francês; carapau muito grado. |
Ex: Um charro do alto destes dá bem p’ra mim. |
Charro negrão |
charr' n'grão |
Variedade de carapau também designado carapau azul. |
Ex: A c'm'é que 'tá a vender o charro negrão, parente Vergil? – Olhe, pre ser p'ra si, face-'le a dez destons o q'ortêrão. – Ai, que coisa tã cara, parente!... |
Charrueco |
chârruéc' |
Arado; charrua; tinha os seguintes componentes: rabelo, aipo; aiveca; rêlha, tamoêro; maluco. |
Ex: Comprí um charrueco novo, este ano nã cavo nada à enxada. |
Chasnada |
châsnáda |
Gritaria; chiada; clamada. |
Ex: Mái atã que chasnada sará aquela pr’ali? Nã me digas qu’anda pr’ali alguma zorra atrás das galinhas. |
Chasnadela ou chasnado |
châsnâdéla ou châsnádo |
Gemido; grito. |
Ex: Q’ondo a zorra ‘le jogou a boca, o bicho dé’uma chasnadela que nem calculas. |
Chasnar |
châsnár |
Gritar; gemer; chiar. |
Ex: Deram-me um casal de patacas, tu nã fazes ideia… Levam a chasnar o dia entêro!… |
Chêga |
chêga |
Cobrição. |
Ex: Tens a vaca ressaída, Zé. – O boi da Quinta já ‘le deu uma chêga. |
Chegar |
ch'gar |
Cobrir; servir-se; enganar; galar; chigar. |
Ex: Tenho que chegar o boi àquela vaca ratina qu' ela descobriu maré. |
Chegar a pontos |
ch'gar a pont's ou chigar a pont's |
Atingir uma situação limite. |
Ex: Uma pessoa chega a pontos que nã sabe o qu’há-de fazer… |
Chegar ô pé |
ch'gar ô pé ou chigar ô pé |
Ser como; ser tão bom como; ser igual. |
Ex: P'r más que quêras, nunca l'e chegas ô pé. Aquilo é um barra… |
Chegar o sãingue às ventas |
ch'gar o sãing' às ventas ou chigar o sãing' às ventas |
Exaltar-se; zangar-se; enfurecer-se; irritar-se; embrutar; marafar-se; enzàinar; danar; enrèxar; assubir o sãingue às ventas. |
Ex: Nã me faças chigar o sãingue às ventas qu' dô-te uns sopapos … |
Chegar p’ra lá os bêços |
ch'gar p’ra lá os bêç's |
Tirar o sentido de; esquecer; desiludir-se; desistir; desinteressar-se; desem-maginar-se; desimaginar-se; barimbar-se; marimbar-se. |
Ex: Ó Manel, aquela moça além dos Tramoçais é que me dava jêto. – Chega p’ra lá os bêços que d’além nã levas nada. Ela já se fala com o Fernando do Tòjêro. |
Chegar-se |
ch'gar-s' |
Aproximar-se; apròchegar-se. |
Ex: A gente tem de se chegar ali p' ô lado da agência que 'tá quái na hora da camineta abalar. |
Chêrum |
chêrúm |
Mau cheiro; fedor; cheiro intenso; fadôr; má-chêro; fedorum; pexum. |
Ex: Bu! Que chêrum que ‘tá aqui. Há-de ser alguma batata podre. |
Chiada |
chiada |
Gritaria; chasnada; chiada. |
Ex: Andam ratos ali no sobrado. Durante a nôte fazeram uma chiada que nã me dêxaram dormir. |
Chiar |
chiar |
Gritar; gemer; chasnar. |
Ex: Dêxa de chiar qu’isso nã dói nada. |
Chiba ou chibarra |
chiba ou ch'barra |
Cabra jovem; cabrita. |
Ex: Esta cabra é do melhor que há. Nã vê aquela chibarra ali? É filha dela. Todes anos cria duas. |
Chibatêro |
ch'bâtêr' |
Caçador fraco. |
Ex: Eh, chibatêro! Atã ond'é que 'tá a caça?... – Passí pre casa, dêxí-a logo lá. Inda matí três coelhos e duas perdizes... – Cada caçador, cada mentiroso... |
Chibato |
ch'bat' |
Bode; ir à caça e não apanhar nada; nega; chibo. |
Ex: O ti Alberto já teve de pear o chibato qu’ele nã dêxava as cabras. | Andí com a’spingarda às costas tod’ô dia e trago o chibato. |
Chibo |
chibo |
Cabrito; ir à caça e não apanhar nada; nega; chibato. |
Ex: Dá-me vontade matar aquele chibo agora p'à Festa. – Mata sim. Quem o come em chibo nã o come em bode… | Grande caçador que me saíste… Só panhas chibos… |
Chigado |
chigad' |
Próximo; à rés; à rèzinha; aparrado; arrumado; arrumadinho. |
Ex: Desencosta a cadêra um coisinho. – P'ra quem? – Atã nã vês que 'tá chigada à menza?!... |
Chigado ô que é bom |
chigad'ô qu'é bom |
De boa qualidade; do melhor que há. |
Ex: Já viste uns bácoros qu' o Tóino tem ali p'a vender? – Já. Sã uns belos bichos... – Aquilo é mat'rial chigado ô qu' é bom!... |
Chigar |
chigar |
Cobrir; servir-se; enganar; galar; chegar. |
Ex: Tenho que chigar o boi àquela vaca ratina qu' ela descobriu maré. |
China |
China |
Mulher sem pêlos na púbis; sem cabelo. |
Ex: Ó Zé, des qu’a Zabel da Corga é china. Diz-me lá s’é verdade. Tu sabes que tu já tens ido por lá… |
Chinha-chinha! |
chinha-chinha! |
Modo de chamar os porcos. |
Ex: Aquele pórco nã sai da coêra. ‘Tará doente? Cinha-chinha-chinha, toma lá… |
Chó! |
chó! |
Ordem de paragem ao burro; aí!...; aí, chó!...; aí, ó!… |
Ex: Chó! Burro. ‘tás com munta pressa… |
Choça |
choça |
Lamaçal; charco; prisão; lamatêro; patamêro; atolêro; lavajo. |
Ex: Aquela fazenda é uma choça. Q’ondo chove, p’à água secar leva meses. |
Chocar |
chocar |
Cozer lentamente. |
Ex: O decomer fêto p'a minha Maria fica semp'e bom. – Atã perquem? – É qu' ela, logo, tempera bem e, despôs, dêxa semp'e o decomer a chocar um belo pôco na panela. |
Chôcha |
chôcha |
Vulva; órgão sexual feminino; rôla; tianica; pássara; passarinha. |
Ex: Des qu’a chocha da Zabel é china. Semp’e gostava de ver uma coisa dessas. |
Chôchada |
chôchada |
Sociedade momentânea em que cada participante disponibilizava o dinheiro que trazia consigo (sempre pequenas quantidades) para, em conjunto, comprarem aguardente para beberem em partes iguais; vaquinha; latinha; finta. |
Ex: Apetecia-me beber uns porretes, mái só tenho dôs destons. Vejam lá o qu’é vocês têm pr’aí qu’a gente faz uma chôchada. |
Chofre |
chofr' |
Troca repentina de duas coisas sem avaliação cuidada do seu valor; praicau. |
Ex: Olha que linda faquinha qu’ê tenh’aqui. – Faz-se já um chofre com a minha!… |
Chofre (de) |
de chofre |
Repentinamente; surpreendentemente; de súbito; sem más esta nem más aquela; tã penas; de rompante; de ramotão; em menos de nada; num nadinha; sem más nem quem. |
Ex: Aquilo foi uma coisa de chofre. Nem tive tempo de pensar. |
| Chôriça |
chôriça |
Enchido de carne de porco, tradicionalmente, feito na tripa do próprio animal, depois de muito bem lavada. |
Ex: Ê se t'ver presunto nã quero mái nada... – Ê cá tamém gosto munto de presunto, mái pelo-me pre chôriça... |
| Chorina |
churina |
Chorona; choramingas. |
Ex: Ai que linda mecinha que tem aqui, prima, benz'à Dés... – Só tenho pena é qu'ela é um coisinho chorina. De noite, nã dêxa ninguém descansar. |
Chote-chote charimbote |
chot'-chot' charimbot' |
Brincadeira efectuada junto à lareira, que consistia em segurar num tição enquanto se dizia o mais rápido possível a lenga-lenga “chote-chote charimbote / quatro arrobas tem um pote / s’ele morrer nas minhas mãos / carregarê até à morte”, seguida de um sopro no tição; ao interveniente que deixasse apagá-lo na sua mão eram-lhe vendados os olhos e postos objectos em cima da cabeça sucessivamente até que adivinhasse o nome de um deles. |
Ex: Moços, vamos jogar ô chote-chote charimbote? Vá, já ‘tá aqui um tição. |
Chover que Dés a manda |
chover qu' Dés a manda |
Chover muito; chover a cântaros. |
Ex: Olhem bem o que vai aí de chuva... – É assim qu' ê cá gosto. Chove que Dés a manda... |
Chupa |
chupa |
Chucha; boneca. |
Ex: Ó, Maria, põe a chupa na boca da meçalha a ver s'ela se cala... |
Chupão |
chupão |
Chaminé da lareira. |
Ex: A tu cozinha nã faz fumo nenhum. – Com esse chupão qu'ê tenho aí é um consolo. Vai o fumo todo p'ra fora. |
Chusma |
chusma |
Grande quantidade; grupo de pessoas; matula; ajuntamento. |
Ex: Mal uma pessoa c'meça arranjar o pêxe, junta-se logo uma chusma de moscas que nã s'aguenta... Punhefra!... |
Chuvenhiscar ou chuveniscar |
chuv'nhiscar ou chuv'niscar |
Cacimbar; chuviscar. |
Ex: Tem 'tado a chuvenhiscar nã sê s’isto é p’a durar… |
Ciética |
ciét'ca |
Ciática. |
Ex: Mái atã, parente, o qu'é que foi isso? – Tenho 'tado p'aqui com uma ciética, só dô andado agarrado a um pau. Já fui quem-mar o nervo da orelha mái de pôco me serviu. |
Ciêro |
ciêr' |
Gretas na pele das mãos e da cara, ressequida e estalada pela acção do ar seco e frio. |
Ex: Com este frio, tenh’a boca chêa de ciêro. – Põ' 'í um coisinho de banha qu' ajuda a passar. |
Cilha |
cilha |
Apetrecho composto por uma espécie de cinta em tecido ou couro e uma corda, utilizado para apertar a albarda das bestas. |
Ex: Dêxa-m’apertar bem a cilha, nã vá a albarda tombar pl’o caminho. |
Cimba |
cimba |
Cima; riba. |
Ex: Dés Noss’Senhor’tá lá em cimba a olhar pr’a gente. |
Cioso |
ciô-z' |
Ciumento. |
Ex: O Tóino nã vêo, nã sê perquém. – A m'lher nã o dêxa. Aquil' é munto ciosa... |
Ciroilas |
cirôilas |
Ceroulas. |
Ex: Q’ondo dares banho, nã te esqueças a mudar as ciroilas que já andaste a semana toda com elas. |
Clamada |
clamada |
Gritaria; queixume; clamada; chiada; chasnada. |
Ex: Venho do enterro do ti Zé da Chapada, a famila dele fazia uma clamada naquele cemitério qu’até dava dó. |
Clamar |
clamar |
Lamentar-se; queixar-se; gritar; berrar. |
Ex: P’ra qu’é ‘tares sempre a clamar dessa manêra? Pior ‘tô ê cá e nã digo nada. |
Clarabóia |
clarâbóia |
Buraco para deixar entrar a luz num local escuro; buraco numa mina, resultante do abatimento do tecto, por onde entra a luz. |
Ex: Tenho qu' abrir ali uma clarabóia no telhado qu' isto nã se vê aqui nada. | Cudado nã vás lá munto pr' ô pé da mina, qu' ela já tem uma clarabóia e podes cair lá p'a drento.... |
Clarão |
clarão |
Luminosidade; relâmpago. |
Ex: Que grande clarão qu’aquele relâmpago fez!… |
Classe (uma) |
uma class' |
Muito bom; uma maravilha; de boa qualidade |
Ex: C'm' é que 'tá o pêxe, hoje, ti Zé? – 'Tá barato, pode levar à vontade qu' iss' é uma classe... |
Cobra-cega |
cobra-cega |
Espécie de lagarto, cego e sem membros, que goza da fama, totalmente falsa, de ser extremamente venenoso. Tem vida, exclusivamente, subterrânea; licranço. |
Ex: Nã me falem em cobras qu'até me dá arrepios. Da cobra-cega, atão, tenho um medo... |
Cobrão |
cubrão |
Doença ou mancha na pele. |
Ex: Nã sê o que tenho aqui na barriga que me dá uma com'chão... – Isso, quái de certeza qu' é cobrão. Até se vê a pele d' ôtra cor... |
Cobrir |
cobrir |
Fecundar; galar. |
Ex: Adonde vai com a sua porquinha, parente? – Vô-me ô barrasco da Quinta é ver s' ele a cobre... |
Côca |
côca |
Papão; figura imaginária com que se assusta as crianças. |
Ex: Ai, menino, esconde-te bem qu’aí vem a côca!… |
Cóca (à) |
à cóca |
À espreita. |
Ex: Aquela ‘tá semp’à cóca. Vê tudo o que se passa por aí. |
Coçairo |
c'çáir' |
Vadia; borga; fofoquice; geraldina; laré; boavaiela. |
Ex: Estas môças d’agora andam semp’e no coçairo. Em vez d’aprenderem o governo da casa vão é pr’ós balhos. |
Cocégas |
c'cégas |
Cócegas. |
Ex: Nã me toques qu’ê tenho muntas cocégas. |
Cocharro |
c'charr' |
Utensílio feito de uma irregularidade da cortiça utilizado como copo para beber água, geralmente, nas fontes; acreditava-se que tinha o dom de não transmitir as doenças. |
Ex: Ê cá bebo semp’e água p’lo cocharro. Des qu’é uma vasilha munto sôdável. |
Cochino |
c'chin' |
Porcalhão; javardo; porco. |
Ex: Grande cochino! Atã aqui na rua é que se faz o serviço?… |
Coêra |
cuêra |
Ver cuêra. |
|
Côida |
côida |
Côdea. |
Ex: A parte do pão qu’ê mái gosto é a côida. Q’ond’ele fica bem cozidinho… |
Coisa e tal (e) |
e cois'i tal |
Etc. |
Ex: Atã, e que tal de festa?... – Olha, aquilo, o tempo nã dé p'ra nada... Foi-se a uma barreca, foi-se a ôtra, bebé-se-l'e uns porretes, e coisa e tal, e assim chigô a noite... |
Coisas e loisas |
coisas e loisas |
Cobras e lagartos; mundos e fundos. |
Ex: Mái o qu' é qu' a moça fez p'a andarem só a d'zer coisas e loisas dela?... |
Coiséco |
côiséc' |
Bocadinho; pouco; pequena porção; coisinho; belisco; manchinha; mancheca; lembisco; pequenalho; pincôlho; fuim. |
Ex: Com a fome qu’ê tenho, só me dás um coiséco de pão deste tamanho… |
Coisinho |
côisính' |
Bocadinho; pouco; pequena porção; coiséco; belisco; manchinha. |
Ex: Ó prima, nã me dá aí coisinho d’hortelã p’a ê pôr nas sopas, fazendo favor?… – Panhe aí à sua vontade, criatura de Deus… |
Coisíssima nenhuma |
côisíss'ma n'nhuma |
Nada; absolutamente nada; nem pôco, nem munto, nem nada; carofes; uma pouca de nada. |
Ex: Inda hoje nã fiz coisíss’ma nenhuma!… Tenho levado a manhã entêra p’a trás e p’à frente. |
Coiso |
côis' |
Pénis; pila; pingalhete; grila; minhoca. |
Ex: Com’é que t’atreves a ‘tar aí com o coiso de fora a verter águas quái à frente de todos?… |
Coitadalho |
coitadalh' |
Coitadinho; pobrezinho. |
Ex: Nã vês qu’o moçe p’queno ‘tá empessado? Coitadalho mal pode com a enxada… |
Colete |
colêt' |
Peça de vestuário feminino, do tipo de um colete de homem, apertado e fechado com colchetes, que era utilizado com as funções de soutien. |
Ex: S' ires ô vinte nove, nã te desqueças de levar o colete, senã q'ondo ires ô banho e molhares a combinação, vêm-te os pêtos... |
Colher de panela |
c'lher d'panela |
Colher em forma de cúpula invertida e cabo comprido para servir a sopa da panela ou terrina para o prato; colher de concha; colher funda. |
Ex: Alcança-me lá aí a colher de panela p’a ê cá tirar o caldo. |
Colher de puxar |
c'lher d'puxar |
Colher de maiores dimensões para servir a comida da panela ou travessa para o prato. |
Ex: Com’é qu’ê tiro o decomer da panela sem colher de puxar?… |
Colher funda |
c'lher funda |
Colher em forma de cúpula invertida e cabo comprido para servir a sopa da panela ou terrina para o prato; colher de concha; colher de panela. |
Ex: Esta colher funda é méme à conta do prato. |
Colhêrão |
c'lhêrão |
Pau direito em forma de espátula estreita e grossa utilizado para mexer as papas enquanto estão a cozer; colher de grandes dimensões feita de madeira de cepa de urze utilizada em culinária. |
Ex: Vê lá o colherão já se aguenta de pé. É sinal qu’as papas já ‘tão cozidas. |
Com a pulga na orelha |
com a pulga na orelha |
Desconfiado; atento; alerta; com olho em. |
Ex: O meçalho-pequeno gosta tanto de ti que, tã penas t' ôviu d'zer que t' ias imbora, f'cô logo com a pulga na orelha nunca mái te perdé de vista... – Mái atã e ê qu' agora não posso levar... |
Com cara de pôcos amigos |
cara d' pôc's amig's |
Antipático; zangado; com má cara; marafado; marfado; enzainado; danado; enrèxado; de venta arreganhada; de rabo alçado. |
Ex: Dêx'-ô qu' ele hoje 'tá com cara de pôcos amigos, inda se joga a ti... |
Com coisas (pôr-se) |
pôr-s'com coisas |
Desculpar-se; aborrecer; troçar; zombar; fazer pouco; fazer cachamôrra; judear; arremedar; mangar; fazer arrenegas; caçoar; abusar; fazer porra; fazer pôco; pegar com; antrar com. |
Ex: Ó parente, nã se ponha com coisas qu' ê nã tenho pacência p'a gôzos... |
Com mintira e tudo |
com mintir' e tud' |
Passe o exagero; exagerando; com exagero. |
Ex: O mê pórco tem más de catorze arrobas... Com mintira e tudo. Más é um belo bicho. – Umas onze p'ra doze, nã digo nada... |
Com o olho a luzir |
com o ôlh'a luzir |
Interessado; tentado. |
Ex: Zé Manel, anda com a gente. – Nã. Ê nã vô. – Ele diz que nã vai, mái já 'tá com o olho a luzir... |
Com o olho em |
com o ôlh' em |
Atento; alerta; com a pulga na orelha. |
Ex: Nã te descudes com ele, qu' ele nã é de confiança. – Sossega qu' ê 'tô semp'e com o olho nele... |
Com os bofes de fora |
com os bof's de fora |
Ofegante; cansado; extenuado; escalfado; esbaforido; dado; desmastreado; descadraçado; escadraçado. |
Ex: O que faz a idade... – Atão?... – Uma ladêrinha destas tã pequena e chego cá im cima com os bofes de fora... |
Com respêto a |
com r'spêt' a |
Acerca de; sobre; relativamente; a respêto de. |
Ex: E com respêto àquilo qu' agente falô ontordia, já resolveste alguma coisa?. Inda não, mái amanhã logo te dô uma resposta.. |
Com teres |
com ter's |
Rico; possuidor de bens; com boa situação económica. |
Ex: Eles andam assim tod's mal vestid's, mái nã penses, aquil' sã gente com teres. – Des que têm muntas sobrêras e madronhêr's... |
Com uma bagadinha ou com uma bagadinha na asa |
com 'ma bagadinha ou com 'ma bagadinha na asa |
Ligeiramente bêbado; embriagado; alegre; espingardado; escarado; quentinho; pingado; iscado; escorvado. |
Ex: Nã l'e ligues qu'ele já vem com uma bagadinha... Nã vês os olhes dele todos piscos... |
Cómado |
cómâd' |
Cómodo; conforto; condições; aconchego. |
Ex: Mái que lindo casaco que mecêa traz aí, prima. – E o cómado qu'isto faz... É méme quentinho... |
Combinação |
combin-nação |
Peça de vestuário feminino usado por baixo do vestido, por vezes, sem outra roupa interior. |
Ex: Ó filh, veste uma combinação qu' isto inda 'tá frio. nã andes aí quái em cação. |
Combro |
combr' |
Camalhão; elevação de terra entre dois regos ou delimitadora de casêras, quadras e lêras . |
Ex: Estes combros f’caram munto baxos, as casêras agora levam pouca água. |
Comer |
c'mer |
Comida; alimento; decomer; bucha; farnel. |
Ex: Este comer hoje ‘tá méme gostoso com-mo a tu mãe fazia. |
Comezana |
cum'zana |
Petisco; pândega; festim à base de comida; função; patuscada; pangalhada. |
Ex: Nã foste à mortepórque do ti Chico, nã sabes o que perdeste. Aquilo foi cá uma comezana… |
Comichoso |
cum'chôzz' |
Esquisito; irritadiço; que se ofende facilmente; gènudo. |
Ex: Tó diébe! S’é comichoso… Nã se ‘le pode d’zer nada… |
Como a mim |
com-m'à mim |
Como eu. |
Ex: Faz com-m' à mim, que fica bem fêto. |
Como Dés é servido |
c'm' dés é servid' |
Com dificuldade; não muito bem; mal; màlamente. |
Ex: Atã isso já vai melhorzinho, ó quem? Já o vejo aí a andar… – Ai, parente, p' aqui vô c'm' Dés é servido... Màlamente dou um passinho ó dôs e tem que ser agarrado a este pau… |
Como o outro que diz |
c'm'o ôtr' q' diz |
É mais ou menos assim; isto é; expressão de incerteza, desconhecimento ou conformismo. |
Ex: Atã já ‘tás a panhar essa bajas ‘inda a mêo crecer? – Isto é como o outro que diz, quem o come em chibo nã o come em bode. |
Como quem nã quer a coisa |
c'm' quem nã quer a coisa |
Disfarçadamente; sorrateiramente; maldosamente; de forma falsamente ingénua; com segunda intenção. |
Ex: Como quem nã quer a coisa, lá o deste indróminado… |
Como uma fita ou como uma seta |
com-m' 'ma fita ou c'm'uma fita ou c'm'uma seta |
Rápido; depressa; que nem uma fita; que nem uma seta; ligêro. |
Ex: Nã viste p'r 'qui o mê canito? – Já há um belo pôco, passô aqui c'm' uma fita... |
Compadre de palmas |
compad' d'palmas |
Compadrio resultante dum ritual, semelhante a um sorteio, efectuado com as palmas bentas, entre dois amigos, no Domingo de Ramos. Caso o resultado fosse positivo, passavam a tratar-se por compadtres o resto da vida. |
Ex: O mê compad' Manel do Moinho há-de par'cer p'r 'qui hoje. – Nã sabia qu' ele er tê compadre... – Somos compad's de palmas, mái nã m'a dmira nã saberes que quái ninguém sabe disso, a nã ser a gente. Quái tôd's cudam qu' ê cá sô padrinho do meçalho dele... |
Companha |
companha |
Companhia. |
Ex: Fui a Marmelete em companha do prim’Zé das Corchas. |
Compassado |
compassad' |
Lento. |
Ex: Esta chuvinha assim compassada é qu' é boa. Fica toda na terra... |
Completo |
complet' |
Divertido; engraçado; original; bem-caçado; bem-panhado; adevertido. |
Ex: Aquilo, o moço é mémo completo. Adonde ele 'tá é semp'e uma risada... |
Compor |
compor |
Ajeitar; arrumar; arranjar; reparar; resolver; afêçoar; aconchegar; atamancar; amanhar; arrenjar; assilhar. |
Ex: Antes dos primos chegarem, temos de compor esta casa de fora. | Tal achas este enrascanço qu' ê 'tô metido, hã?!... – Dêxa lá qu', isso, tudo s' há-de compor... |
Concertina |
concertina |
Pequeno acordeão; fole; harmónio; harmónica. |
Ex: O ti Chico Bêço tinha uma concertina antiga, mái nunca tocou nada de jêto. Era só serr’-abaxo serr’-acima, serr’-abaxo serr’-acima… |
Condutar |
condutar |
Comer com pão; poupar; gerir. |
Ex: Nã sê o que leve p'a condutar o pão... – Leva aí um coisinho de presunto, m'lher... |
Conduto |
condut' |
O que se come com pão (carne, doce, gordura, fruta). |
Ex: C'mer o pão com este conduto, é melhor c'mê-lo às secas... – Nã me digas que nã gostas de margarina... |
Confêto |
confêt' |
Amêndoa da Páscoa. |
Ex: Atã, já arrecebeste muntos confêtos? – Este ano, nem por isso. Inda só me deram um saquinho deles... |
Conhecer |
conhecer |
Saber; perceber. |
Ex: Tenho ali uma romanêra p'a enxertar, c'm' é qu' aquilo se faz? – Nã me prècures a mim, qu' ê cá nã conheço nada disso... |
Consoante |
consoant' |
Conforme. |
Ex: Nã me vendes o tê macho? – Consoante o que quêras pagar por ele. |Vendo-te o macho por vinte notas. Compras? – Consoante e conforme. Se vier com o aparelho e o charrueco, ‘tá o negóiço feto. |
Consoante e conforme |
consoant' e conform' |
Depende; conforme; sigund' e conforme. |
Ex: Vendo-te o macho por vinte notas. Compras? – Consoante e conforme. Se vier com o aparelho e o charrueco, ‘tá o negóiço feto. |
Consoante (em) |
em consoant' |
Proporcionalmente; de acordo com. |
Ex: Estas batatas, em consoante ô tamanho da rama, era p'a darem o drobo. – Lá nisso tens rezão. |
Consoante (responder ô) |
r'sponder ô consuánt' |
Responder com oportunidade; responder à letra. |
Ex: Fali-‘le bem ó nã fali? – Más ela respmdé-te logo ô consoante… |
Constã |
constã |
Congestão; enfarte; apoplexia. |
Ex: Atã o pobrezinho do tê avó lá morreu. – É verdade. Dé-'le uma constã, assim f'cô log'ali. nem tampôco disse nada. |
Conta |
conta |
Cuidado; cautela; bolha; quantia; quantidade. |
Ex: Enq’ont’ê vou ali panhar umas folhinhas de couve, toma aí conta do menino, qu’ê volto logo. | Tem conta nã partas a enfusa qu’a asa já ‘tá rachada... | Quem sabe vê a graduação do madronho p’las contas qu’ele faz dentro dum copo q’ondo se bate com um pàzinho. |
Conta (na) |
na conta |
Na melhor condição; na melhor altura; na hora H. |
Ex: Maria, temos que panhar aquelas zêtonas qu' elas 'tã méme na conta. |
Contanto |
contant' |
Desde que; o que é certo; a verdade; de facto. |
Ex: Contanto qu' as coisas foram assim. Aqui 'tá o Tóino que nã me dêxa mintir. |
Contarelo |
contarel' (como em farnel) |
Invenção; intriga; coscuvilhice; mexerico. |
Ex: Ó mãe, a prima Ana, q’ondo de pentêa, guarda os cabelos num buraco da parede p’a q’ondo morrer. – Dêxa-te de contarelos qu’isso nã tem graça nenhuma. |
Conta-se o milagre mái nã s' alomea o santo |
conta-s'o milagr' mái nã s'âl'mê' o sant' |
Conta-se a história, mas não se revela o nome do visado. |
Ex: Já sabem o que se deu com a Manelinha?... – Olha, filha, tens que t' ac'st'mar que conta-se o milagre mái nã s'alomea o santo... |
Contenda |
contenda |
Disputa em tribunal. |
Ex: Aquela famila dos Moedas andam sempre em contendas. Q’onto mái ricos são mái querem… |
Contente que nem uma pêga sem rabo (mái) |
más content' q' nem 'ma pêga sem rab' |
Muito contente por ter tido uma grande surpresa ou ter conseguido algo difícil; relacionado com o facto de, quando se segura um pássaro vivo pelas penas da cauda, ele se libertar deixando-as na mão do caçador. |
Ex: Atã d'sseram-me qu'a su Zèzita já passou de classe. – Cale-se aí, prima, anda mái contente que nem uma pêga sem rabo... Ela, entes, nem dormia só a pensar nisso. |
Continuadamente |
continuàdamént' |
Continuamente; persistentemente; de seguida. |
Ex: Esta tarde choveu continuadamente bem umas três horas. Até a rebêra roncava… |
| Continvar |
continvar |
Cultivar. |
Ex: 'Teja com Dés, parente. ´Tá cavando umas batatinhas... – Noss'Senhor 'le dê saúde. Pôs atão tem's qu'ir continvando alguma coisinha p'à gente ter decomer. |
Contrata |
contrata |
Contrato; acordo. |
Ex: Faz-se já aqui uma contrata. Tu vens-me ajudar a arrencar as batatas no Sábado e ê cá logo vou cavar contigo um dia que dê jêto. |
Contrato ou contratos |
contrat' ou contrat's |
Jogo efectuado na quaresma, por duas pessoas, em que cada um procura, diariamente, avistar o outro em primeiro lugar e mandá-lo fazer o que tinham combinado; as ordens mais frequentes são olha p´ró céu!, enjoelha-te!, olha p' ô chão!, bêjinho!, etc, mas fica ao livre arbítrio e imaginação dos participantes escolher outra qualquer. O jogo termina no Sábado anterior ao Domingo de Páscoa, Sáb'd' Aleluia, e é ganho pelo que, nesse dia, der a ordem em primeiro lugar. O pagamento, normalmente, é efectuado em amêndoas da Páscoa, de acordo com o combinado previamente. Para firmar o contrato os jogadores entrelaçam o dedo mínimo da mão direita e, em uníssono, recitam a seguinte lenga-lenga: contrato contrato(s) / contrato(s) fazemos / Sáb'd' Aleluia / desmancharemos.Outras versões: contrat's contrat's / faremos faremos / Sáb'd' Aleluia / desmancharemos;
ou (versão enviada por Vera Porfírio, da família dos "Luíses" do Pé do Frio, natural das Lobeiras, Marmelete): (dito em conjunto) - Contratos contratos / contratos faremos / q'ondo nós nos veremos / enjoelharemos ó nã enjoelharemos?
(Um deles responde) - Enjoelharemos.
(dito em conjunto) - Sáb'd' Aleluia / os nossos contratos desmancharemos / e Domingo de Páscoa / os nossos folares repartiremos.
(o mais rápido diz) - Enjoelha-te!
Podiam ser estabelecidas algumas regras adicionais como não poder dar a ordem dentro de casa ou antes do nascer do sol. O ganhar diariamente nada influencia o resultado final. Para esse efeito, só conta o vencedor do Sáb'd' Aleluia.
|
Ex: Já fiz um contrato com a Pa’linha e ‘inda quero fazer más uns dôs ó três. Esta Páscoa hê-de ter uma fartura d’amêndoas. – Vê lá nã sejas tu a ter que pagá-las... |
Convindado |
convindad' |
Recompensa; oferta; presente; lembrança; fêras. |
Ex: Ond’é que foste que tardaste tanto? – Fui fazer um mandado à ti Ladêra. – E ele dé-te algum convindado? |
Convindar |
convindar |
Recompensar; dar um presente; gratificar; convidar. |
Ex: P’la fêra tenho de convindar o mê afilhado, que já há munto tempo que nã ‘le dou nada. |
Copada ou copadinha |
c'pada ou c'pâdínha |
Copo de bebida alcoólica; calço; calcesinho; porrete. |
Ex: Com este jantar, uma copadinha de vinho vinha méme a calhar. |
Copêra |
c'pêra |
Pelhêra, com várias prateleiras, destinada a acomodar os copos, púcaros e tigelas. |
Ex: Alcança-me lá aí uma tejala da copêra, p’ra ê pôr a léveda. |
Cor de burro q'ondo foge |
c'pêra |
De cor indefinida; descorado. |
Ex: Nem tampôco ê sê d'zer a cor daquilo. Olha, era cor de burro q'ondo foge.... |
Coraja (dar) |
dar coraja |
Incentivar. |
Ex: Atã, que tal vai isso, parente. Vai melhorzinho? – Eh'q... Se nã fosse p' aí a famila me dar coraja, nã sê o qu' é qu' ê nã taria já fêto… |
Còrar |
còrár |
Branquear a roupa ao sol, sendo ògada periodicamente. |
Ex: T'rezinha, vai lá além ògar a roupa que 'tá a còrar além ó pé do tainque da Pedra da Zorra. Senã ela fica toda requem-mada com esta soalhêra... |
Côrcha |
côrcha |
Cortiça. |
Ex: Atã parente, já ajuntou a corcha toda? È-q! Isto est’ano eram só mêa-dúiza de canudos… |
Côrcho |
côrch' |
Banco de cortiça; cortiço; canudo; moncho. |
Ex: Que belo pé de sobrêra… Cada corcho pesa umas quatro ó cinco arrobas. |
Cordão |
curdão |
Atacador dos sapatos; correntes; fio de ouro usado pelos homens abastados pendurado numa casa do colete, tendo, geralmente, na outra ponta um relógio de bolso guardado na algibeira do colete. |
Ex: Ata-me lá aí esse cordão da bota qu’ê custa-m’a dobrar. | Já viste bem o cordão d’oiro qu’o senhor Laborda tem no colete. E o relógio tamém há-de ser d’oiro… |
Córga |
córga |
Pequeno córgo. |
Ex: Além naquela córga é um bom sito p’a armar loisas. O ano passado panhí lá uma preção de piscos. |
Córgo |
córg' |
Pequeno barranco na vertente dum serro; córrego. |
Ex: Vai panhando madronho sempre por aquele corgo arriba, q’ondo estrapores pr’ô lado de lá, tem conta que a partilha ‘tá logo a seguir. |
Cornêra |
curnêra |
Fita de coiro ou corda para atar a canga aos cornos das duas vacas que formam a junta; fita para atar os cornos contíguos das vacas na junta; fiador. |
Ex: Aperta lá aí a cornêra da Brèjêra qu’isso ‘tá frouxo. |
Corpo (dar de) |
dar d'côrp' |
Obrar; defecar. |
Ex: Uma vez fui dar de corpo além por trás dumas mongariças, q’ondo dí por mim tinha um canzarrão atrás a olhar. Panhí uma rabana que nã quêras saber… |
Corredêra |
curr'dêra |
Telha por onde escorre a água da chuva até à gotêra. |
Ex: Antes que chova, tenho que ajêtar aquelas corredêras do telhado da cozinha. |
Córrego |
córr'go |
Barranco; córgo. |
Ex: Naquele córrego, méme em anos secos, corre semp’e uma pinguinha d’água. |
Correntes |
currént's |
Cordão de ouro para segurar o relógio de bolso a uma casa do colete, também designado apenas por cordão. |
Ex: S’ê fosse rico, tamém gostava umas correntes daquelas grossas com’ô senhor Furtado. |
Correnteza |
currenteza |
Margem; bónus. |
Ex: Pronto já tem aqui um litro de lête bem medido com uma bela correnteza. |
Correpio |
curr'pío |
Pressa; agitação; grande afluência; fandeliro; sangria desatada. |
Ex: Ist’é uma vergonha… É sempre um correpio d’homens a caminho daquela casa que nã para. | Anda tudo aí num correpio pre casa da festa de Santo Antóino. |
Correpito |
curr'pit' |
Marco geodésico; talefo; gurita. |
Ex: Daqui vê-se bem o correpito do Serro dos picos. Olha, lá ‘tá ele. |
Correr fama |
currer fama |
Constar; dizer-se que; soar; des que. |
Ex: Sará verdade qu’ele dêxou a mulher? – Corre fama que sim. Des qu’ele a dêxou e fugiu com outra. |
Corrido |
currid' |
Direito; seguido; simples; sem enfeites. |
Ex: Quero o chão todo em ladrilho corrido, sem mái nada. |
Cortadela |
curtâdéla |
Corte; ferida; cortilada; golpe. |
Ex. Ai que grande cortadela qu’ê fiz aqui neste dedo!… |
Corta-vento |
corta-vent' |
Andorinhão; cata-vento. |
Ex: Os corta-ventos fazeram uima preção de ninhos no bêrado do armazém, aquilo é uma porcaria naquele chão que nã se dá conta… |
Cortar a vaza |
fazer'a vaza |
Impedir; surpreender; ganhar a vaza; fazer vaza; fazer a vaza; endròminar; indròminar; enganifar; entrar com; entrar; trocar as voltas; fazer a parte; fazer a falseta; fazer o ninho atrás da orelha. |
Ex: Quem é que fez a vaza? – Fui ê cá. – Atã jogue outra. |
Cortiço |
curtíç' |
Cilindro de cortiça preparado para habitação um enxame de abelhas; côrcho; canudo. |
Ex: Este ano morreram-me uns q’ontos enxames quê tinha além na Córga da Murta. – Eram de caxa ó de cortiço? |
Cortilada |
curtilada |
Corte; ferida; cortadela; golpe. |
Ex: Ê cá faço as cortiladas que calha nas ‘zêtonas. Elas adoçam na méma. |
Cortilar |
curtilar |
Fazer vários cortes longitudinais nas azeitonas, geralmente em número de cinco, para as pôr a adoçar em água. |
Ex: Tenh’ali perto dumas duas arrobas de ‘zêtonas p’a cortilar e ‘táme aborrecendo de fazer esse serviço. |
Côrtilho |
côrtílh' |
Quartilho. |
Ex: Se me despenssasse aí um côrtilho desse fêjão p’ra ê cá samear, dava-me jêto. |
Côrtinho |
côrtính' |
Doze tostões. |
Ex: Q’ont’é qu’isso vai custar? – Olhe, ê tenho vendido a côrtinho, mái p’ra si faço-‘le per dez testons. |
Coscuvelhêro |
cusc'v'lhêr' |
Bisbilhoteiro; mexeriqueiro; curioso; metediço; intriguista; pespeneta. |
Ex: Grande coscuvelhêra!… Mete-s’em tudo. O qu’é qu’ela tem a ver com a vida dos outros?… |
Costal |
custál |
Gorpelha pequena. |
Ex: Bom, já tenho o costal chêo de folhas, dêxa-me lá carregá-lo pr’à pecilga. |
Costume (ter) |
ter c'stum' |
Costumar. |
Ex: O mê pai tinha costume de crestar sempre p’lo Santo Antóino. |
Costura |
c'stura |
Conjunto composto por pequena cesta de verga e todos os apetrechos de costura nela contidos. |
Ex: Mái atão adond'é qu'ê dêxí a c'stura, S'nhor?... Agora precisava de coser estas calças e nã sê dà àgulha e das linhas. |
Costurêra |
c'sturêra |
Figura mítica que atormenta as noites dos que nela acreditam, com o som da sua máquina de costura; medo. |
Ex: Aquela casa tem qualquer coisa… Enq’onto lá morí, ouvi umas belas vezes a costurêra. De nôte, q’ondo nã s’ouvia mái nada, até se m’arrepiavam os cabelos… |
Cotear |
cutiar |
Andar dum lado para o outro; ir a vários sítios. |
Ex: Toda a manhã, andí a cotear pala Vila, tenho serviço todo por fazer... |
Cova do Ladrão |
cova do Ladrão |
Parte inferior da nuca onde frequentemente eram encontrados piolhos. |
Ex: Tenho uma comechão aqui na cova do ladrão… O qu’é que sará isto? |
Côvado |
côvâd' |
Medida métrica utilizada no comércio de tecidos, correspondente a 58 centímetros. |
Ex: Em podendo, despache-me lá aí dôs côvados desse pano, fazendo favor. |
Covato |
c'vat' |
Pequena cova, geralmente para semear sementes mais sensíveis, como melancias, melões e pepinos. |
Ex: Já samií uns q’ontos covatos de melancias, vamos lá a ver s’o tempo as dêxa nacer. |
Côve ou côve branca ou côve de novelo |
côv' branca ou côv' de n'vel' |
Repolho; espécie de cozido tradicional de Monchique feito com repolho e carne de porco; novelo de côve. |
Ex: Agora, d’Inverno, é quái todas as nôtes côve p’à cêa. |
Côxe-pé |
côx'-pé |
A coxear. |
Ex: O Tóino teve um desatre f'cô mal duma perna. – Pobrezinho, agora anda aí côxe-pé, côxe-pé... |
Cozedura |
cu-z'dura |
Trabalhos de fabricação artesanal de pão; amassadura. |
Ex: Toma lá um panito qu' ê já hoje fiz uma cozedura. E saí-me más ó menes... |
Cozedura
(estar de) |
'tar d'cu-z'dura |
Estar em trabalhos de fabricação artesanal de pão. |
Ex: Hoje ‘tô de cozedura, nã tenho vagar p’a mái nada. |
Crapela |
crâpéla |
Casca interior das castanhas e outros frutos;crosta; carepa. |
Ex: Ah, comes as castanhas com crapela e tudo?… Olha qu’isso faz mal à barriga… E há quem diga qu’até faz criar piolhos. |
Crapetêro |
crâp'têr' |
Pirlitêro, planta muito espinhosa. |
Ex: Fui p'a panhar uns q'ontos pirolitos além naquele crapetêro, punhefra, leví uma picada qu'inda me 'tá a correr sãingue aqui desta mão... |
Cravanito |
crâvânit' |
Pequena quantidade de carvão. |
Ex: Daqueles paus de madronhêro inda fiz p' ali um cravanito... |
Cravão |
crâvã' |
Carvão. |
Ex: Aqueles paus de madronhêro dã ali um cravão qu' é uma classe... |
Cravoêra |
crâvuêra |
Monte de madeira, coberto de terra, em cúpula, ardendo em combustão lenta de que resulta o carvão; forno de carvão; forno de carvão; cravoêra. |
Ex: Aquela serra, agora, parece uma cravoêra. 'Tá tudo ardido. – Mariolas, deram cabo disto tudo... |
Crença |
crença |
Amor; dedicação; entusiasmo; paixão; influêinça; enfluêinça. |
Ex: Que grande crença qu’aquela moça tem p’lo Tóino… Ele é que nã a sabe estimar. |
Crençoso ou crençudo |
crençô-z' ou crençud' |
Possessivo; diz-se dos animais que protegem muito os filhos impedindo que alguém se aproxime; incrençado; influído; encrençado; enfluído. |
Ex: Esta porca é tã crençuda com os bacorinhas que nam dêxa a gente se chegar lá pr’ô pé. |
Crente |
crent' |
Adepto de religião não católica. |
Ex: Andam agora por’í uns crentes a bater à porta das pessoas, más ê cá nã quero saber desse crujedo pr’a nada. |
Crestar |
cr'star |
Extrair o mel dos favos utilizando, geralmente, um centrifugador manual. |
Ex: O mê pai tinha costume de crestar sempre p’lo Santo Antóino. |
Criação |
criação |
Educação; ensino; |
Ex: Aquelas criaturas nã entendem as coisas, o qu’é a gente ‘l’há-de fazer… |
Criação (dar a) |
dar a criação |
Educar; ensinar. |
Ex: Aquela famila nã sabe dar a criação ôs moç's, andam aí que nem uns malteses. |
Criatura |
criatura |
Pessoa; homem; mulher; animal. |
Ex: Aquelas criaturas nã entendem as coisas, o qu’é a gente l’ há-de fazer… |
Crismar |
crismar |
Castigar. |
Ex: Metest'-te com ele, já te crismô... |
Cristalêra |
cr'stâlêra |
Móvel para acomodar loiça. |
Ex: Ó filha, vai lá aí acomodando a loiça na cristalêra, enq’onto ê dou uma barredela na casa. |
Crujedo |
crujéd' |
Canalha; ralé; corja; cambada. |
Ex: Anda este crujedo pr’aí a mexer nas coisas dos outros, nã sabem que roubar é pecado? |
Crusidade |
crusidád' |
Interesse; cuidado; preocupação. |
Ex: ‘Tive ê cá a g’ôrdar isto com tanta crusidade p’a tu agora nã ‘le dares valor nenhum… |
Crusidoso |
crusidô-z' |
Cuidadoso; interessado; preocupado; curioso. |
Ex: Ele foi semp’e munto crusidoso com as coisas dele. |
Cruzado |
cruzad' |
Quatro tostões. |
Ex: Uma caxa de forfes ‘inda custa um cruzado ou já amentou? |
Cruzes |
cruz's |
Quadris; regiões laterais do corpo entre a cintura e a anca; cadêras. |
Ex: Ando com uma dor aqui nas cruzes, custo-me a dobrar. |
Cruzes! |
cruz's! |
Deus nos livre!; valha-nos Deus!; livra! |
Ex: Des que ‘parecem medos, à nôte, além na passaja da rebêra. – Cruzes! Dês Nosso Senhor m’acuda! |
Cu |
cu |
Extremidade do pepino e outros frutos que os liga ao caule. |
Ex: Punhana! Este popino tem um amargós no cu que nã se dá comido!... | Os homens são com-m’ô popino, amargam sempre no cu... |
Cu à vela (de) |
d' cu à vela |
Nu; despido; em cação; em panete; em pelote. |
Ex: Ai, que vergonha! Andares aí de cu à vela!... Vai-te já vestir! |
Cu (cair de) |
cair d'cu |
Cair ficando sentado no chão; bater uma cusada. |
Ex: Já caíste de cu... Ê nã te disse p'a ires de vagar qu'escorregavas?... |
Cu d’arroba |
cu d’arrôba |
Pessoa pesada que tem dificuldade em se levantar. |
Ex: Alevanta-te cu d’arroba! ‘Tás gordo com-m’um pórco. |
Cu d’asnêra |
cu d’asnêra |
Vaidoso; presunçoso; baboso; caganêroso; inchado; asno; de rabo alçado; maniento; penêrento. |
Ex: Alevanta-te cu d’arroba! ‘Tás gordo com-m’um pórco. |
Cudados |
cudad's |
Preocupação. |
Ex: Cheguí lá ô curral, vi o pórco dêtado assim duma manêra... punhana, dé-me cá uns cudados... Pensí qu' ele 'tava morto.... |
Cudados (de) |
de cudad's |
Preocupante; grave. |
Ex: O Tóino des que 'tá p' além doente... Aquilo sará coisa de cudados?... |
Cudar |
cudar |
Supor; pensar; tomar conta; estar quase; estar à beira; cuidar. |
Ex: Prim’ Manel, cudava que m’cêa já tinha panhado o madronho todo, más enganí-me... | Punhefra!... Dí ali um escorregão, cudí de cair um porro... |
Cuêra |
cuêra |
Dormitório do porco; parte coberta da pocilga onde o porco dorme e se protege do calor, da chuva e do frio. |
Ex: Este pórco leva semp’e metido na cuêra. Com um calor destes o qu’e ele há-de fazer… |
Cuêros |
cuêr's |
Panos antecessores das fraldas, utilizados nos bebés com essa função. |
Ex: Q’ondo ê era moço pequeno ‘inda s’usava cuêros. Agora é tudo munto fino, já só usam fraldas. Até os velhos!… |
Cuidar |
cuidar |
Supor; pensar; tomar conta; estar quase; estar à beira; cudar. |
Ex: Prim’ Manel, cuidava que m’cêa já tinha panhado o madronho todo, más enganí-me. Inda aí anda... | Punhefra!... Dí ali um escorregão, cuidí de cair um porro... |
Cuidar gado |
cúidar gado |
Pastorear; apascentar. |
Ex: Aquele moço só tem cuidado em gado nã aprende a fazer mái nada. |
Cúifa |
cúifa |
Medo; susto; cagaiço; respêto; cagufa; cagúifa; rabana. |
Ex: Tal foi a cúifa que panhaste 'inda'agora q'ond'ê cá te dí além um eco?... Até ficaste branco.... |
Culotes |
culot's |
Peça de vestuário feminino semelhante a uns calções, usado por debaixo do vestido como roupa interior. |
Ex: Se visses o qu' ê vi, inda agora... – O qu' é que foi, conta lá.... – Dé o vento ali nas saias da Mari' Náiça, f'cô com os culotes à mostra... |
Curral |
curral |
Pocilga; arramada. |
Ex: Joga lá aí um braçado de rama de batata doce p’ra dentro do curral. Nã sei s’o pórco gosta disso ó não. |
Curraleta |
currâléta |
Pocilga; curral; arramada. |
Ex: Tenho além uma malhada de curraletas qu’é uma coisa linda. Mái gastí além munto dinhêro. |
Cusada (bater uma) |
bater'ma cusada |
Cair ficando sentado no chão; cair de cu. |
Ex: Ist'é uma ladêra tã empinada que, mal a gente de descuida, bate-se logo uma cusada. |
Cuspinho |
c'spinh' |
Saliva; cuspo. |
Ex: Ata nã perdi a minha bela faquinha?!… – Olha põe cuspinho na mão e diz o “lagarto pintado”. |
Cuspinho atrás da orelha (pôr) |
pôr c'spinh'atrás da orelha |
Abusar. |
Ex: A mim ninguém me põe cuspinho atrás da orelha, q’ê nã dêxo!... |
Custar o coiro e o cabelo |
c'star o côir' e o cabel' |
Ser muito caro. |
Ex: Mái que lindo vestido que tens, T'reza... – Ai, m'lher, cala-te aí, qu' isto cudtô-me o coiro e o cabelo... |
Custo (a) |
a cust' |
Com dificuldade. |
Ex: Com-m' é que deste carregado uma canastrada dessa de batatas?!... – A custo, mái lá me desenrasquí. |